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Coluna do LAM

Favelas em Niterói, uma tragédia anunciada

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Do alto da Boa Viagem, a noite, olhe para o Preventório. O que eram poucas luzes há 30 anos atrás, hoje tomam conta de todo o morro. O crescimento da favela em frente a estação do catamarã caminha para o pico do morro, desafiando a engenharia. Afinal, há uns 20 anos atrás, uma gigantesca pedra estalou, quase rolou. Se rolasse ia matar muita gente. Os engenheiros explicaram que a camada de terra sobre o solo do morro é muito fina e recomendaram a remoção urgente favela. No entanto, o efeito foi oposto: a favela se multiplicou e na próxima chuva forte a tragédia virá. Não por falta de aviso.

Um dia desses recebi um e-mail com fotos antigas de Niterói e a primeira coisa que notei foi a beleza dos nossos morros antes de serem tomados por favelas. Um processo que parece cada vez mais acelerado e desgovernado. Pelo que ouço por aí as favelas simbolizam um processo de degradação urbana que faz mal, principalmente, a quem vive lá.

Você conhece alguém que goste de viver numa favela?

Em 1980 tive um programa na Rádio Jornal do Brasil chamado “Vida no Rio”. Durante um período fiz uma série especial chamada “vivendo na favela” que me fez visitar várias, especialmente às margens da Avenida Brasil (Maré, Vila do João, etc) e também em Niterói, Zona Sul do Rio, enfim, foi um trabalho duro mas que valeu a pena. 

A primeira pergunta que fazia às dezenas de pessoas que entrevistei foi “o senhor/senhora gosta de viver aqui?”. Ninguém, absolutamente ninguém, disse que sim. O sonho de todos era uma casa própria num lugar digno, “mesmo que fique mais longe”, ressaltavam alguns. E nunca é demais deixar claro que a maioria absoluta dos moradores das favelas é gente do bem. A criminalização de quem mora em favelas é preconceito burguês, covarde, imbecil. 

O curioso nisso tudo é que as pessoas que cultuam as favelas não moram lá. Em geral são abastados que carregam um discurso pronto em defesa do que a realidade chama de “submoradias” penduradas nas pirambeiras das cidades. Ah, o politicamente correto manda dizer que não é de bom tom usar a expressão favela e sim comunidade. Dane-se o politicamente correto, uma versão new wave de um hipotético manual de funcionamento da famigerada UDN.

Se ao longo dos anos as favelas fossem dando lugar a moradias dignas, respeitosas, humanas, eu escreveria comunidade com o maior prazer. Mas não estou aqui para fazer o jogo dos contentes. Não vim ao mundo fazer média e sim mídia e, até segunda desordem, favela é favela.

A remoção das favelas para habitações mais dignas é um dos mitos da politicagem nacional. Poucos tocam no assunto. Pior: em tempos de eleições os políticos sobem os morros prometendo bica d’água e tudo mais em troca de votos. Favela é quintal de política baixa, fundamentalismo religioso, baia de espertalhões, domínio dos traficantes de tudo.

Com a cavalgada incontrolada (e estimulada) da explosão populacional (que agrada a politiqueiros caçadores de votos) hoje é mais fácil apontar uma cidade que não tenha favelas do que as que têm. 

Tempos atrás a TV exibiu uma reportagem especial sobre tráfico de crack e outras drogas e fiquei chocado com a quantidade de favelas em Ouro Preto, cidade-Patrimônio da Humanidade. Como vimos naquela recente tragédia, aqui no Estado do Rio cidades serranas como Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis também estão tomadas de “comunidades”. E quando chega o verão com suas tempestades nosso coração aperta vendo aquele festival de desabamentos cheios de vítimas que, com certeza (bato na tecla) não queriam viver lá.

Há quem diga que é um problema sem solução. Já li vários textos dizendo que a tendência do Brasil é se transformar em um dos maiores favelões do mundo. Sei que os fiscais de muitas prefeituras responsáveis pela não proliferação das favelas se recusam a subir os morros com medo de levar tiros. Por isso as cidades estão cercadas e prevê-se, em breve, o temido estrangulamento urbano, que em outras palavras significa perda total.

O que fazer?

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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