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Ricardo Boechat, o filho de Niterói

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:24 do dia 16 de fevereiro de 2019
Sobre: Paixão pela cidade
16fev

Gilson Monteiro já falou quase tudo, mas acho que ainda há o que dizer sobre o amigo Ricardo Boechat, o argentino mais niteroiense que conhecemos. Gilson foi um de seus melhores amigos e seus relatos merecem ser lidos. Estão aqui no site.

Boechat sempre foi apaixonado por Niterói, especialmente o bairro em que viveu, São Francisco, que morou quando chegou da Argentina aos quatro anos de idade até a idade adulta. Viveu lá com a sua grande e afetuosa família, comandada pela mãe, a corajosa argentina Dona Mercedes Carrascal que concedeu uma comovente entrevista no velório do filho e mostra bem a quem ele puxou. Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=8aLd_F7beB8

Generoso, ele tinha seis irmãos e era pai de seis filhos: Beatriz, de 43 anos; Rafael, de 39; Paula; de 38; Patrícia, de 30; Valentina, de 14 e Catarina, de 12. Nos jornais e no rádio ele costumava se referir aos filhos como “minhas crianças”.

Na infância, Boechat conheceu São Francisco no tempo em que era um areal, final dos anos 1950 até anos 70. Algumas fotos antigas do bairro aqui: https://bit.ly/2BzXz0K

O bairro era um enorme e romântico areal, ruas de terra batida, com muita mamona, pitanga, brejos naturais onde a garotada gostava de caçar rã e montar em cavalos que viviam circulando livremente. Boechat estava sempre lá e sempre atento para que seus amigos não confundissem cabeça de rã com cabeça de cobra, o que, aliás, é muito comum.

A partir dos anos 1980, com a especulação imobiliária que devastou Icaraí, Ingá, Santa Rosa, ele temia que o mesmo viesse acontecer em São Francisco.

Por isso, sempre que vinha visitar Dona Mercedes, muitas vezes com o seu Land Rover Defender 110 cheio de filhos, Boechat procurava seu Tarquínio para conversar. Seu Tarquínio era presidente da, na época, temida Associação de Moradores de São Francisco que controlava o bairro com mão de ferro. “Se não for assim, eles destroem o bairro”, dizia o jornalista que sempre denunciava mal feitos e lambanças no seu bairro.

Ultimamente ele não estava nada satisfeito com a situação da cidade. “Aqueles prédios cafonões em São Francisco estão comendo pelas beiradas e, se não ficarem de olho, logo irão comer o miolo. Tem um negócio enorme na avenida do canal, um prédio que destoa de tudo.

A iluminação pública do bairro está péssima, velha, parece luz de velas, o trânsito um caos, a favela do Preventório está crescendo descontrolada, a impressão que tenho é que o nosso bairro virou terra sem lei.

Charitas então gera fúria.  Isso sem falar do abandono no quesito segurança pública. Parece estado de sítio, as nove da noite não tem mais ninguém nas ruas.

Aqueles quiosques imundos e nojentos de Charitas, ofendem a população que paga caro pelo IPTU e outros impostos. Horror também os quiosques da Boa Viagem e de Piratininga onde não faltam ratazanas.

O calçadão de Icaraí virou piada de mal gosto. Estreito para tantos pedestres, skates, bicicletas, carrinhos de bebês ainda tem que suportar aqueles monstros que chamam de quiosques. A prefeitura diz que tem projetos, mas Niterói está absolutamente de saco cheio de projetos e quer realizações, obras prontas.”

Seu amor por Niterói era presença constante em sua vida, em seu trabalho. Está nítido o orgulho de ser niteroiense no prefácio que escreveu de meu livro “A Onda Maldita – como nasceu a Fluminense FM”. Ouça aqui:https://soundcloud.com/user-810093288/o-prefacio-de-ricardo-boechat

Boechat gostava de trabalhar com jovens jornalistas que temiam o seu temperamento estourado, exigente, mas depois agradeciam. Muito. Afinal estamos falando do melhor repórter do Brasil que, para a minha alegria, foi meu chefe duas vezes; no Estadão e na Rádio Bandnews FM.

Eu trabalha em uma revista, estava de folga na praia de Itaipu, o celular tocou e do outro lado da linha a voz inconfundível “Melô, nem vem…nem vem que dá pra ouvir o barulho do mar…rsrsrs. Estou precisado de você.”

Da lá mesmo passei em casa, tomei um banho e é claro que, muito orgulhoso e honrado, aceitei ser repórter sênior da equipe que inaugurou um fenômeno chamado Rádio Bandnews FM, em 20 de maio de 2005. Na mesma data, Boechat estreava no rádio.

Uma bela equipe que tinha o Mauro Silveira como chefe de redação, Carolina Coutinho âncora e subeditora, mais Adriana França, chefe de reportagem, e um exército de jornalistas de primeira linha entrevistando, apurando ancorando.

Bettina Chateubriand também foi destaque no ar com a sua narrativa precisa e timbre de voz raro, diferenciado. Entre os profissionais estava Rodolfo Schneider, que hoje dirige a Rádio e o jornalismo da TV Band no Rio.

Foi um novato em jornalismo, André Marinho, que fez a última, super didática e íntima entrevista com o Boechat. Vale a pena ver os dois capítulos aqui:

Parte 1 – https://www.youtube.com/watch?v=UQCgP1sBw4s&feature=youtu.be

Parte 2 – https://www.youtube.com/watch?v=ZC-Fgi8DFXs

Sempre haverá muito o que falar sobre Ricardo Boechat, o melhor repórter do Brasil, que deixou um enorme rombo no jornalismo brasileiro.

Uma amiga niteroiense, dele e minha, escreveu um belo relato no Facebook. Maria Ignês Imbassay conviveu com Boechat no tempo em que ambos estudavam no Centro Educacional de Niterói, CEN, que funcionou na avenida Amaral Peixoto. Com uma proposta revolucionária, o CEN formou muita gente boa. Ela escreveu:

Eu, ele e outros colegas figuramos na lista de maiores vândalos do CEN

Quando um de nós se vai, nós todos partimos. Nós, do CEN somos, a um só tempo, singulares e coletivistas. Assim era Ricardo Boechat.  Semana passada, eu o estava elogiando e logo apareceram uns cretinos pra falar mal dele.

Você pode não concordar com ele, mas ele foi um dos maiores jornalistas do país. Filho de uma família perseguida pela ditadura, nunca fez alarde disto, pra se promover. Lutou contra o sistema, dentro do sistema. Hoje, uma esquerda, que, ao contrário da de seus pais, é parasita, atirou pedras contra ele, sem saber o que ele passou, quando ela nem existia.

Boechat teve inúmeros problemas derivados da perseguição e não usou isto. Errou, como todo mundo, muito, por aí. Mas foi um grande brasileiro. Joia do Centro Educacional de Niterói. Se o Brasil fosse o CEN, seria o melhor país do mundo. Se a imprensa fosse Boechat, não ia andar por aí, reclamando que não vende mais jornal.

Boechat usou, melhor do que qualquer um, o que aprendemos no CEN. Dizer o que pensamos. Antes de ele ficar famoso, eu o encontrei e rimos lembrando traquinagens do CEN. Eu, ele e outros colegas figuramos na lista de maiores vândalos do colégio, o célebre caderno de ocorrências, no qual você só ia parar se quase tivesse assassinado um professor.

Boechat uma vez fez a professora de datilografia, Dona Inaiá, parar no hospital, ao fingir que havia se atirado pela janela. A gente fazia isso no CEN. Nós, que tínhamos muitos problemas em casa, ali, durante oito horas por dia, encontrávamos nossa família, nosso refúgio, nosso céu. O CEN acolhia a todos. Era conhecido como manicômio. Colégio dos marginais de RJ e Niterói.

Quem era expulso de todos os colégios era aceito no CEN. Em plena ditadura, éramos estimulados a dizer abertamente o que pensávamos. Enquanto o país era assombrado pela repressão, nós gozávamos da mais absoluta liberdade. Chego a pensar que esse helicóptero tenha sido derrubado. Afinal, Boechat se confrontou pessoalmente com Bolsonaro e todos os demais que já estiveram ou estão no poder.

Como é a nossa marca centrina, ele desagradava gregos e troianos. Falava mal de tudo. Nós crescemos com espírito crítico. Hoje, vejo filhos de colégio de freira descobrindo tarde o que já fazíamos, nos anos 60/70. Grafitamos todo o nosso colégio, em 1970, antes da street art. Vaiamos o Geisel, quando ele passou em frente a ele.

Éramos iconoclastas. Diziam que a gente era filho de gente rica, privilegiada, mas 50% dos alunos ali eram bolsistas. Boechat, como eu, amava o CEN, e foi graças a ele que o colégio continuou com as portas abertas.

Agora, não sei como será. Já não é o mesmo colégio, nem de longe. Mas gosto de saber que ele ainda existe. Podia ficar horas discorrendo aqui sobre o jornalista, Ricardo Boechat. Mas só me vem à cabeça o menino louro, de cabelos longos, montado num cavalo, adentrando a quadra do CEN, na festa junina, com uma galinha preta debaixo do braço, que ele soltava no meio da quadrilha.

O vândalo que ganhou o coração de todo o Brasil, fazendo o papel de si próprio. Papel que nos foi designado no CEN. Tornarmo-nos, como queria Nietzsche, aquilo que éramos. (A frase, hoje manjada, vinha nos boletins do colégio.) Vivemos, de fato, a liberdade sem medo, de Neil.

Que Boechat esteja nos braços de nossa queria Dona Myrthes, a maior educadora do Brasil.”

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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4 thoughts on “Ricardo Boechat, o filho de Niterói

    1. Meu caro Marcelo,
      Só quem foi ex-aluno, pai de ex-aluno e ex-professor do CEN entende o que é a família Centrista.
      Este cidadão Érico Lemos não sabe o que diz…

  1. Parabéns Gilson, pelas brilhantes reportagens sobre nosso “irmão” Niteroiense Ricardo Boechat, em especial desta, em que são reportados fatos da Familia dele e do bairro onde morou por muitos anos. Excelente também o link sobre fotos de Niterói, objeto de meu interesse publicado em sua coluna em Email anterior. Abraços.
    Louis Reinaldo Perner-Curitiba-PR

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