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Whatsapp, o pomo da discórdia dos tempos atuais

Escrito por Luiz Antonio Mello às 09:45 do dia 23 de janeiro de 2021
Sobre: Aplicativo da desumanidade
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Pomo significa maçã. Pomo da discórdia é a pessoa ou objeto que desagrega, causa desavenças, rupturas. Vem da mitologia grega, mãe da Sabedoria. Explicação detalhada da Wikipedia:

A Guerra de Troia começou durante o casamento de Peleu e Tétis, no Olimpo: Éris, a deusa da discórdia, que naturalmente não tinha sido convidada, resolveu acabar com a alegria reinante e entregou anonimamente aos olímpicos uma linda maçã (pomo), toda de ouro, com a inscrição “Para a mais bela”.

A confusão já estava armada. As três deusas mais poderosas, Hera, Afrodite e Atena, imediatamente se colocaram a disputar o troféu. Nenhum dos deuses quis se meter a juiz nessa confusão, inclusive o rei do Olimpo, Zeus.

Esse, sabiamente, resolveu se livrar do espinhoso fardo e passá-lo a Páris, um mortal que era filho do rei Príamo, de Troia. Na época, Páris trabalhava como pastor e vivia feliz ao lado de uma ninfa adorável chamada Enone. Estava no campo pois sua mãe, dias antes de seu nascimento, sonhara que estava dando à luz serpentes flamejantes que se enrolavam entre si, depois pediu aos adivinhos para interpretar o sonho e eles disseram que o bebê destruiria Troia e todo seu território.

Assim estavam as coisas até surgirem diante de Páris as 3 divindades em suas formas mais reluzentes e magníficas.

Todas tentaram persuadi-lo com oportunidades infinitamente gloriosas. Em troca da maçã de ouro, Atena ofereceu a Páris o comando de uma histórica e vitoriosa guerra. Já Hera ofereceu também a ele a glória de ser o Rei absoluto de toda a Europa e Ásia. E Afrodite por sua vez, garantiu mais uma vez a ele o amor da mais bela mulher do mundo.

Páris, confuso em meio a tantas maravilhas oferecidas a si, concedeu o título a Afrodite. E a deusa, ignorando solenemente a presença de Enone, que nada ofereceu, realizou o desejo do jovem. A deusa sabia exatamente onde se encontrava a mais bela mulher do mundo: era Helena, casada com o rei de Esparta, Menelau.

Auxiliados por Afrodite, Helena e Páris fugiram para Troia. Assim que soube da traição, Menelau enfurecido foi pedir auxílio ao seu inescrupuloso irmão, o rei Agamenon para junto com ele persuadir todos os grandes generais e reis da Grécia numa marcha colossal contra os troianos (inclusive o rei da província de Ítaca, Odisseu, arquiteto do plano com o Cavalo de Troia e posteriormente famoso pela Odisseia). Agamenon viu no infortúnio do irmão a oportunidade perfeita para conquistar Troia, até então conhecida como impenetrável. E foi a partir desse momento que começava a mundialmente conhecida Guerra de Troia. No fim Páris cumpriu a missão perdendo a guerra e causando a destruição de Troia.

E a famosa maçã passou a ser conhecida como pomo da discórdia – que hoje indica qualquer coisa que faça as pessoas brigarem entre si.

Inventado pelos espíritos de porco Brian Acton e Jan Koum, em 2009, o whatsapp é uma versão turbinada do pomo da discórdia. Grande causador de conflitos, mal entendidos, fofocas, difamações, está presente em 83,3% dos smartphones brasileiros, insuflando, um aplicativo que é sempre citado onde existe confusão, desconfiança, traição, mal entendidos.

Se você colocar os dois maiores escritores do mundo de hoje conectados ao whatsapp e lhes der um assunto delicado, mas de suma importância, em questão de minutos os dois irão brigar e romper. Definitivamente. Detalhe: o whatsapp não desliga. Só para de importunar quando é desinstalado.

Bom o exemplo envolve os dois maiores escritores do mundo, imagine se nós, da vala comum, nos colocarmos no lugar deles. É normal escrever mal no whatsapp, vacilar na pontuação, na concordância, nos adjetivos, tudo bem se for uma piada ou uma informação simples tipo “vai chover”. Mas se o assunto for sério, delicado, pode ser o fim da relação dos usuários. Sejam melhores amigos, marido e mulher, irmãos, irmãs, seja um grupo. Não sobra nada quando a confusão impera.

Não será um absurdo se um presidente da república declarar guerra a outro pelo whatsapp. Fico imaginando se nos tais 13 dias que precederam o quase fim do mundo existisse whatsapp. Foram os dias em que Estados Unidos e Rússia ficaram a menos de um palmo de uma guerra nuclear, entre 16 e 28 de outubro de 1962, depois da descoberta de instalações para mísseis nucleares russos em Cuba. John Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev quase apertaram o botão.

A Rússia iria começar acabando com Nova Iorque, os Estados Unidos com Cuba. Felizmente houve negociações secretas e o fim do mundo foi adiado. Se fosse hoje, com o whatsapp, adeus mundo cruel. Kennedy e Khrushchev só precisariam de 15 minutos de bate-boca digital para, furiosos (esse aplicativo é mestre em ódio, mágoa, decepção, dor) acabarem com o planeta.

Há tempos, numa redação de jornal da vida, alguns de nós, mais íntimos, nos chamávamos mutuamente de “canalha”.  “E aí, canalha, tudo bem?”. “Fala, canalha”, era como se fosse “meu chapa”, “meu amigo” e tal. Nunca deu problema porque era linguagem falada, que tem tons de voz, pausas, respiração, permite a fluência saudável da interlocução. No caso do texto frio (muitas vezes mal escrito, apressado, corrido) do whatsapp, a palavra vai sem tom nenhum, sem respiração, sem pausa, sem nada.

Para quem está sendo “xingado” pela primeira vez o canalha não soa, ele surge numa frase como ofensa, e pode levar o interlocutor a inquirir “canalha, que papo é esse?”. E ainda tem a vírgula. Se ao invés de “fala, canalha” sair “fala canalha” sugere que o outro disse algo leviano, uma fala canalha.

Estou restringindo cada vez mais o uso desse aplicativo, mas em geral as pessoas não se tocam e começam a forçar a barra para resolver assuntos por ali. E resolver no whatsapp significa, no geral, se desentender, brigar, porque além das falhas da escrita há ainda o atraso. Exemplo: o X cara pergunta ao Z “você vai lá?”, quando Z  começa a responder, digitando mais rápido X emenda “com quem?”, “volta quando?”, são ingredientes de uma enorme confusão. É só misturar quem com quando, onde, para que.

Quando recebo mensagens de feliz aniversário, feliz Natal, etc, não considero porque até segunda desordem é coisa de algoritmo, de robô e, na boa, uma falta de respeito do cacete. Há casos de demissões pelo whatsapp, gente que comunica nascimento e morte.

Esse aplicativo é a essência da desumanidade. Há quanto tempo você não recebe uma ligação de uma pessoa que curte? Papo, voz para lá, voz para cá, coisa de seres humanos? Há quanto tempo? Quando uma pessoa querida faz anos você liga desejando feliz aniversário ou manda algum bonequinho rebolando com uma mensagem industrial no whatsapp, correndo o risco de, sem querer, digitar uma interrogação no final. “Feliz aniversário?” e a pessoa: “por que a dúvida, canalha?”.

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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