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Coluna do LAM

O tiro da pandemia na cultura de Niterói

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No Brasil a indústria cultural emprega, pelo menos, cinco milhões de pessoas e responde por 3% do Produto Interno Bruto, o PIB. Como os dados são oficiais, presumo que os números sejam maiores. A tradição brasileira é farta em informações chapa branca pouco confiáveis, a começar pelo censo que tenta convencer que não há explosão populacional nas regiões metropolitanas. O que há, então?

Tradicionalmente, Niterói é uma usina cultural. A frase não é só um slogan interessante, basta ver a impressionante quantidade e qualidade de pessoas, empresas, instituições voltadas para o audiovisual, música, teatro, artes visuais, etc. São milhares.

Aqui na cidade nasceu a primeira faculdade de cinema do país, a da UFF, criada em 1968 por Nelson Pereira dos Santos. Hoje, as faculdades voltadas para o audiovisual estão em todo o país, atendendo a uma forte demanda por mão de obra do setor.

Também aqui, e na UFF, surgiu o primeiro curso superior de produção cultural que forma profissionais em todos os setores (são muitos) que envolvem a indústria do setor.

A pandemia foi um tiro na indústria cultural do mundo, em especial do Brasil e principalmente em Niterói. Mal comparando, é como se, de repente, fosse proibido pescar bacalhau na Noruega, gafanhotos destruíssem os vinhedos do Chile ou furacão devastasse o Vale do Silício, na Califórnia.

Uma noite dessas, tarde, pus a máscara e dei uma volta de bicicleta por aí e o que vi foi uma calma artificial, um silêncio que está mais para o mutismo, gritos represados que nos remetem aos contos mais sombrios do gigante Rubem Fonseca. Tudo deserto, mas inquieto.

Ver o Reserva Cultural fechado foi um baque, especialmente para muitos (me incluo) que iam lá uma vez por semana, pelo menos. Quiosques lacrados, bares e restaurantes trancafiados, lugares onde há 90 dias havia música, cinema, havia vida.

É evidente que artistas, produtores, diretores estão passando o maior sufoco, também em Niterói. Muitos tem recorrido as redes sociais fazendo suas lives, divulgando o seu trabalho para o mercado.

Um mercado local complicado porque, da mesma forma que há uma grande produção cultural as empresas, em geral, não patrocinam. Uma mania provinciana, no mau sentido. Confundem investimento com despesa, parece não entender que associar sua imagem a bons produtos culturais gera dinheiro.

Esta semana o governo federal aprovou a Lei Aldyr Blanc (justíssima homenagem) que destina R$ 3,6 bilhões da União para trabalhadores da cultura de todo o país. Os valores são parecidos com o auxílio emergencial que a Caixa Econômica está concedendo. Só que a União vai transferir para estados e municípios que farão o repasse aos beneficiários.

Já a Câmara dos Vereadores de Niterói aprovou um auxílio para trabalhadores da área cultural, que terão direito a três parcelas no valor de R$500 e coletivos e instituições culturais R$1,5 mil por três meses. Entre as exigências: só vão receber o pagamento do auxílio apenas para profissionais do setor cadastrados na Secretaria Municipal das Culturas ou na Fundação de Arte de Niterói (FAN), até 30 de abril deste ano. Ou seja, quem não se cadastrou está fora porque, pelo visto, o poder público não reconhece os artistas e produtores informais.

Acabei de enviar um e-mail para a assessoria de comunicação da prefeitura de Niterói indagando quando e como serão feitas essas operações e espero, sábado que vem, estar publicando aqui a resposta.

Leio que a reabertura dos cinemas na França teve casas cheias. Espero que por aqui, com a chegada da vacina, aconteça algo parecido.

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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