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Combate a enchentes não dá voto, diz o fisiologismo

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:55 do dia 26 de setembro de 2020
Sobre: Chover no molhado
26set

Basta chover forte 20 minutos e tudo inunda. Reclamação geral. No rádio, na TV, nos sites, nos jornais, mas basta a chuva parar e é como se nada tivesse acontecido.

É assim no Brasil desde o surgimento das cidades e em Niterói não é diferente. Segundo o Climatempo, de outubro a março a média mensal de chuvas nos últimos 30 anos na cidade fica bem acima de 100 milímetros, chegando a 185 mm em dezembro.

Bom lembrar que em países tropicais, calor e chuva são normais, naturais. Anormais são queimadas, seca, como são imorais o desmatamento, poluição do ar, do mar, lagoas secando, rios moribundos.

As chuvas não seriam problema se houvesse drenagem suficiente, escoamento. Eventualmente um governo ou outro faz obras pontuais que hoje chamam de macrodrenagem para causar impressão de grandeza, volume, que muitas vezes acabam não resolvendo o problema; incompetência, falta de manutenção, ou subdimensionamento, ou a infestações de ligações de esgoto clandestino, ou tudo isso junto.

A política do fisiologismo, essencialmente eleitoreira e populista tem aversão a obras que não aparecem. Logo, quem trata a administração pública como toma lá, dá cá, sonha com a eternidade no poder, metaforicamente acha que dá muito mais voto construir árvores de Natal gigantescas e luminosas (quem sabe, superfaturadas), ou espalhar chafarizes coloridos pela cidade, do que investir em drenagem decente, para  escoar a água da chuva sem causar inundações.  Soma-se a isso a vista grossa com as ocupações irregulares e suas tradicionais ligações de esgoto clandestinas – sejam de barracos, sejam de mansões – o crescimento desordenado, enfim, uma penca de motivos.

Não é por falta de projetos que Niterói boia na chuva, como aconteceu na última terça-feira, quando mais uma vez puseram a culpa na natureza. “Foi a ressaca, foi a maré cheia, choveu demais”, disseram as autoridades cariocas que são comandadas por um fracassado talibã, sub bispo evangélico, acusado de ladrão. Voltando a Niterói, não é exagero afirmar que ao longo das décadas foram feitos pelo menos uma centena de projetos sérios e alguns, se executados, teriam acabado com as enchentes na cidade.

São investimentos caros, mas totalmente plausíveis, especialmente para uma cidade rica graças aos royalties do petróleo (é a terceira mais rica no estado do Rio, incluindo a capital), orçamento de R$ 3,6 bilhões para este ano. Sem gastança, sem maluquices, Niterói poderia passar por uma macrodrenagem em todos os pontos críticos e resolver o problema. O que falta? Coragem para trocar chafarizes por manilhões e grandes caixas de concreto enterradas, onde quase ninguém vê.

Mas antes de qualquer passo, o marco zero: estancar o avanço das construções irregulares, sem o que nada adianta. A partir desse ponto, aí sim, implantar um programa de drenagem compatível com o crescimento da cidade que, por exemplo, para aprovar um prédio de 20 andares teria que exigir um investimento proporcional em drenagem e captação de esgoto evitando que a rede ficasse saturada.

Toda utopia traz a reboque a distopia. Quem iria discordar? E os vereadores?

Paris é uma festa? É. Mas não foi de orgia com dinheiro público ou guardanapos enfiados na cabeça que os franceses deram o exemplo, inventaram e construíram o maior e melhor sistema de captação e tratamento de esgoto do mundo. Os famosos túneis de Paris – que se espalharam pela Europa – são uma história contada em detalhes no Museu dos Esgotos de Paris (Musée des Égouts), orgulho nacional e um dos mais visitados pelos turistas.

Napoleão Bonaparte construiu a primeira rede de esgotos cobertos, com 30 quilômetros de extensão. Em 1878 foi inaugurada uma rede dupla de distribuição de água e uma rede de esgoto com uma extensão de mais de 600 quilômetros. A rede hoje passa por toda Paris. Sim, o velho mundo ensina que não adianta investir em água sem investir em esgoto.

O que o lado B da história do Brasil conta é que Pereira Passos, tido como o melhor prefeito do Rio (mandato de 1902 a 1906), queria copiar os túneis de Paris, mas a politicalha local guinchou alto e a ideia foi para o lixo.

A ideia era inserir os túneis na revolução urbanística do Rio, que teve como finalidade o saneamento e ordenação da malha de circulação viária. Pereira Passos demoliu casarões, abriu diversas ruas e alargou outras. O alargamento das ruas permitiu o arejamento, ventilação e melhor iluminação do centro e ainda a adoção de uma arquitetura de padrão europeu.

Foram abaixo todos os prédios paralelos aos Arcos da Lapa e o Morro do Senado, a fim de liberar passagem para a avenida Mem de Sá. Para a abertura da avenida Passos, foi demolido o Largo de São Domingos. Após a conclusão do alargamento da rua da Vala (atual rua Uruguaiana), em 1906, que custou a demolição de todo o casario de um dos lados da rua, passou a abrigar as melhores lojas do início do século.

Não satisfeito, Pereira Passos abriu as avenidas Beira-Mar e Atlântica, além de fazer o alargamento das ruas da Carioca e Sete de Setembro, dentre outras.

Mas a grande estrela foi a avenida Central (hoje Rio Branco), com 1.800 metros de comprimento e 33 metros de largura, um dos mais importantes pontos da cidade que abrigou o centro econômico e administrativo. O único porém nesse movimento foi o desmonte do Morro do Castelo, um ponto de interrogação na biografia de Pereira Passos.

Nada precisa ser inventado nas cidades, ou, nada se cria tudo se transforma, princípio da conservação de massas de Lavoisier, por sinal guilhotinado em 1794 porque “a França não precisa de cientistas”, como vociferou o presidente do tribunal, Jean-Baptiste Coffinhal que mandou descer a lâmina. Teria sido Coffinhal um terraplanista?

P.S. – Em 1972, há 48 anos, o ambientalista gaúcho José Lutzenberger avisou:

“Se não conseguirmos, em curto prazo de tempo, vencer a piromania nacional, estará nosso país condenado a transformar-se, durante a vida dos jovens e das crianças de hoje, em um deserto e serão indescritíveis as calamidades que sofreremos. A provável e talvez já desencadeada inversão climática tornará então impossível a recuperação, mesmo a longo prazo.”

P.S. 2 – A nossa Rádio Devaneio entrou em nova fase. Tocamos música brasileira alternativa 24 horas por dia, com locução das 8 as 20 horas. Para ouvir é só clicar aqui: https://radiodevaneio.wixsite.com/radiodevaneio

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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