
Comerciantes antigos da Prainha, em Piratininga — um dos recantos mais tradicionais de Niterói — identificaram a casa onde viveram Milton Nascimento e outros compositores mineiros do lendário Clube da Esquina entre 1970 e 1971. A revelação foi feita pelos irmãos Amilcar e Arnor Tibau em entrevista ao experiente jornalista Luiz Carlos Cascon, ex-chefe de reportagem de O Globo.
Segundo os irmãos, o imóvel fica na Rua Alcir Guaíba Amorim da Cruz, nº 208, a primeira via à esquerda para quem atravessa a Ponte do Tibau, que conecta as duas margens do canal da Lagoa de Piratininga.
Foi nessa casa que Milton, Lô Borges e Beto Guedes se refugiaram para compor parte das obras que, em 1972, integrariam o álbum duplo Clube da Esquina, reconhecido mundialmente como um dos dez discos mais importantes da história da música. O local também era frequentado por outros nomes do grupo mineiro, como Márcio Borges e Fernando Brant.

“Foi nesta casa mesmo”, afirma Amilcar, de 83 anos, ao lado do irmão Arnor, de 90, enquanto aponta para a foto do imóvel — hoje com sinais de degradação — no balcão do Bar do Tibau.
A história da família Tibau na região remonta aos anos 1930, quando o patriarca Álvaro Francisco Tibau montou ali um armazém de secos e molhados, que mais tarde daria origem ao Bar do Tibau. Durante décadas, o estabelecimento serviu refeições e abasteceu moradores e visitantes da área hoje conhecida pelo sobrenome da família.
“O Milton Nascimento e seus amigos estavam sempre por aqui. Eram nossos fregueses, sempre muito simpáticos”, recorda Amilcar.
Fim do mistério
Em setembro de 2021, Milton Nascimento publicou em suas redes sociais uma fotografia de 1972 ao lado da mãe, Lilia, feita na Prainha de Piratininga, no loteamento Mar Azul. Na legenda, ele recorda com carinho o local — que chama de “Mar Azul” — e observa que, ao fundo da imagem, aparece a casa onde viveu com Lô Borges e Beto Guedes durante o período de criação e gravação do álbum Clube da Esquina.
Segundo o próprio Milton, aquela casa em Piratininga foi o ponto de partida de grande parte das composições do disco. A faixa “Lilia”, 18ª do álbum, nasceu justamente de uma cena que o emocionou: ver a mãe caminhando pela rua em Piratininga ao final de um fim de semana de visita. O músico reforça que foi ali, naquele cenário da Região Oceânica de Niterói, que “praticamente nasceu o disco Clube da Esquina”. A identificação precisa do local — agora finalmente estabelecida — ganha ainda mais relevância porque Cascon conseguiu o que diversos repórteres e pesquisadores tentavam há anos: localizar com exatidão o ponto de Piratininga que aparece na imagem histórica.
