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A quem interessa a destruição da saúde pública?

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:11 do dia 18 de julho de 2020
Sobre: Tiraram o tubo
  • Samu
18jul

SamuO Brasil é estranho. É um país onde perguntas ofendem. Uma delas: a quem interessa a destruição da saúde pública?

Vamos começar por Niterói. Funcionários informam que o Hospital Municipal Carlos Tortelly vive momentos dramáticos. Enviaram foto de um homem sem camisa deitado no que seriam cadeiras de uma suposta sala de espera, ao lado de uma lata de lixo. Não publico a pedido dos familiares que temem represálias.

Em 9 de fevereiro, O Globo estampou a manchete “Hospital Municipal Carlos Tortelly, em Niterói, está com aparelhos de ar-condicionado quebrados”.

A matéria informa que “mais de 40 dos 230 aparelhos de ar-condicionado da unidade, referência em urgência clínica, estão quebrados, deixando os pacientes mais expostos a infecções.

(…) O problema tem afetado principalmente os que são atendidos na sala vermelha, justamente a ala que abriga os pacientes em estado mais grave.”

Temendo perseguições, os funcionários tem que se esconder no anonimato por estarem colaborando com a imprensa profissional independente, já que no final das contas tudo é culpa da “mídia” e não dos fatos divulgados pela mídia que mostram que não está tudo divino maravilhoso, mas a ordem é dizer que está tudo divino maravilhoso. Desculpe, Torquato Netto.

Niterói é uma cidade rica. Rica não, riquíssima graças aos royalties do petróleo, o IPTU de escalavrar e outros impostos que pagamos. É a quarta mais bilionária no estado do Rio de um total de 92 cidades.

O orçamento da prefeitura deste ano é de R$ 3 bilhões e 600 milhões de reais, sendo R$ 600 milhões só para a área de saúde.

Aí o cidadão/contribuinte/eleitor pergunta “mas como que o Carlos Tortelly está assim com essa dinheirama toda circulando?” Como perguntar muitas vezes ofende, as dúvidas ficam ecoando, ecoando, ecoando e acabam explodindo nos gabinetes dos três vereadores que questionam o governo. Dos 21 parlamentares, apenas três não apoiam o governo, ou seja, se a prefeitura decidir tacar fogo nos hospitais tem o apoio cego e fiel de 18 vereadores.

Quando a prefeitura de Niterói, num gigantesco gesto de caridade, doou R$ 45 milhões para a prefeitura de São Gonçalo construir aquele hospital de campanha, muitos perguntaram: por que não pegam esse dinheiro e investem no Carlos Tortelly, que ficaria bem melhor?

Só que acendeu o alerta. Estourou a lambança na secretaria de saúde do estado, desvio de mais de R$ 10 milhões da pandemia, um genocídio a céu aberto que pode transformar. Em breve, o governador pode se tornar inquilino de Bangu 8. Por isso, a prefeitura de Niterói não repassou os R$ 45 milhões.

Em 30 de junho de 2017, O Globo publicou: “Hospital Antonio Pedro fecha emergência por superlotação – diretor diz ser ‘humanamente impossível’ trabalhar sem pessoal”.

O diretor do hospital, Tarcísio Rivello, disse, na época que “é humanamente impossível, você vai acabar tendo um atendimento de péssima qualidade, colocando em risco a vida do paciente.”

A pergunta logo circulou: por que a bilionária prefeitura não fez um convênio com a UFF para reabrir e manter a emergência do Antonio Pedro? O valor não pode ser muito maior do que a prefeitura paga de aluguel ao Hospital Oceânico, que são R$ 4,5 milhões por mês, fora pessoal, insumos, equipamentos.

Afinal, na Região Oceânica não há hospital público. O Mario Monteiro é uma unidade pré-hospitalar que não atende urgências de trauma e sequer tem serviço cardiológico. Além disso, foi construído distante dos bairros mais populosos da R.O.

Toda a carga pesada de emergências da cidade (acidentes, tiros, incêndios) vão para o sobrecarregado e mal localizado Hospital Azevedo Lima (no final do Fonseca), que pertence ao estado.

A destruição da saúde pública interessa a conhecidos tubarões do setor. Imagine se o Sistema Único de Saúde, o nosso abençoado SUS, funcionasse plenamente. Ou se a rede pública da cidade atendesse com excelência a população. Poucos seriam obrigados a padecer em filas, esperar meses por cirurgias, ou pagar fortunas por um plano de saúde, cujo poderoso cartel, torce para que a saúde pública quebre.

Os tubarões também não gostam do SAMU e seu atendimento gratuito, que “atrapalha” a expansão desse tipo de serviço extremamente lucrativo por particulares.

O estado eficiente na área de saúde seria uma ameaça para os vendilhões, mas infelizmente o Brasil está longe disso. O fato do presidente ter colocado um general da ativa (logo, representante, sim, do Exército) como ministro interino da saúde (pelo menos até hoje, quinta-feira, 16 de julho de 2020) demonstra o desprezo.

Claro que é possível um militar ser um bom gestor de saúde, assim como é possível um coveiro se revelar um bom administrador de maternidades, mas isso é raro.

Não é radicalismo pueril afirmar que a corrupção é a mãe de todas as mazelas no Brasil. O próprio SUS e boa parte da saúde pública são vítimas de um sistema venal, perverso, corrosivo. Até na pandemia de Covid-19, tem gente indo presa por roubalheira, pouco se importando se na outra ponta há quase 80 mil mortos de Covid-19, muitos (des) graças a corrupção.

Em Niterói a Covid-19 deixa uma sugestão. Hoje, quinta-feira, 16 de julho de 2020, são 7.557 casos confirmados da doença e 247 mortos o que mostra que passou da hora (mas está em tempo) do sistema público de saúde da cidade ser revisto. A começar com aumento salarial para todos os profissionais de saúde; investimento para valorização e expansão do hospital Carlos Tortelly, bem como Orêncio de Freitas; convênio com o Hospital Antonio Pedro para reabrir, ampliar e manter o setor de emergência; transformação da Unidade Mário Monteiro em hospital geral de urgência (e t Trauma); funcionamento 24 horas (também nos fins de semana e feriados) de todas as policlínicas; nomeação de médicos para a direção dos módulos do Médico de Família, que viraram uma ação entre amigos.

Mas esse é outro assunto.

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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