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Engarrafamento de pedestres

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:29 do dia 12 de outubro de 2019
Sobre: Desordem pública
  • moto na calçada
12out

moto na calçadaEncontrei Candinha ali na Padaria Colonial, Miguel de Frias com Moreira Cesar, onde tomo café com pão na chapa. Leitores, sempre sábios leitores, me deram a dica e de fato a Colonial é show. Ar condicionado super (fundamental), atendimento educado, carinho, boa tarde, boa noite, bom dia, por favor, preços justos, enfim, não é à toa que a tradicionalíssima padaria vive lotada. Que bom.

Quando éramos adolescentes Candinha entregava marmitas (quentinhas da época) que a mãe dele fazia. Rodava de 10 da manhã as duas da tarde de bicicleta por Icaraí e Ingá distribuindo e, algumas vezes, nós íamos com ele, dividindo a carga. Cortejo de bicicletas coloridas.

Candinha estudou, fez faculdade (UFF) de filosofia, mestrado, é professor convidado em Stanford, dá aulas…Bom, eu senti o carinhoso tapa nas costas e uma voz meio conhecida “fala, Tônio, há quanto tempo!”, virei e, no ato, rebati “Cândido, que bom de ver”. E ele “Cândido é o cacete (rsrssrs) sou o Candinha de sempre” e emendou “esse café eu pago”.

Sentou e falamos durante três horas curtindo os comentários dele “huummm, delícia de pão na chapa, boa dica”. Percebi que já era noite, hora da Colonial fechar mas, gentis, os garçons nos acalmavam, “tudo bem, ainda tem gente…”. O assunto era nosso amor- paixão – cega – faca molada por Niterói e o congestionamento das calçadas.

Candinha contou que ficou tão chocado com o engarrafamento de alpinistas no Monte Everest (meses atrás) que fez uma palestra a respeito, mas ressaltou que o mais grave é o congestionamento de pedestres nas cidades em geral e em Niterói em particular.

Comentei que saindo do túnel Charitas-Cafubá em um Uber, o motorista perguntava “para que gastar um dinheirão em calçadas tão largas num lugar tão vazio?”, referindo-se a saída do túnel. Tentei argumentar que a gestão pública tem que pensar adiante, mais a frente, acompanhando o crescimento populacional para que exemplos lastimáveis como o Centro de Niterói, Icaraí, Ingá, Santa Rosa, São Francisco não se repitam.

Candinha, então, deu um gole no café e emendou: “ infelizmente o clientelismo e o populismo da política vão deixar que toda aquela área vire uma extensão do Preventório, mas enfim… bem, não gosto de citar exemplo de fora, pode parecer petulância, mas na maioria das cidades dos EUA calçada é sagrada. Em Nova Iorque até há uma saturação de pedestres em algumas áreas, mas se um infeliz subir de moto ou bicicleta em menos de quatro horas estará sentado em frente a um juiz (eleito pelo povo, mandato de quatro anos) e vai sair de lá sem as calças com o tamanho da multa”.

Pensei nas pinguelas em que se transformaram algumas calçadas. Por exemplo, pedestres que tentam caminhar pela calçada do lado direito da Gavião Peixoto entre Miguel de Frias e Lopes Trovão, a todo o instante tem que fazer zigue zague pela rua. Barracas de camelôs, entregadores de panfletos, triciclos de entregas de supermercados, serviços de alto falantes, motos, bicicletas, tornam a vida do pedestre um inferno.

A calçada ali tem, na melhor das hipóteses, 60 anos de idade e além de continuar estreita, os prédios foram construídos sem recuo. Ao longo do tempo os gestores públicos ignoraram o crescimento populacional, além de manterem a permissividade em relação a ocupação irregular que tira espaço de quem é mais importante em uma sociedade: as pessoas.

Candinha acha que “a questão mais grave do mundo civilizado hoje é o meio ambiente e em segundo, quase empatado, está a ordem pública”. Disse ainda: “O que é público é sagrado nos países civilizados, mas por aqui ainda se justifica lambanças com o argumento de que ‘a calçada é pública` ou ´a praia é pública`, isso aqui é ´serviço público`, como se tudo que é ´público´, ao invés de sagrado, seja esculhambado, casa da mãe joana.”

Lembramos que o responsável pela manutenção das calçadas é o cidadão. Uma Lei até justa, mas o cidadão que vê calçadas ocupadas com filas intermináveis de grandes barracas de camelôs, bancas de jornais, quiosques de chaveiros, cachorros fazendo xixi e cocô enquanto os donos fazem cara de paisagem com razão pensa “não vou gastar com a minha calçada se o poder público nada faz para defendê-la”. Candinha: “quase fui atropelado na estreitíssima calçada (dar nome de calçada aquilo é deboche) que faz esquina de Gavião Peixoto com Pereira da Silva. Ali tem um bar que simplesmente enche a calçada já estreita de mesinhas altas onde a clientela bebe cerveja, frita churrasquinho e os pedestres tem que ir para a rua. Numa dessas um ônibus quase me pegou”.

“Repito: a ordem pública deve ser a prioridade de qualquer cidade, condado, estado, país”, emenda Candinha. “Claro que eu sei que o camelô está ali porque precisa, mas é errado o poder público autorizar sem antes construir um recuo para ele; ao ver que um bar avançar em cima da calçada não tem jeito, tem que multar, tem que fazer gestão, tem que defender a cidade.

“É comum vermos por aqui calçadas invadidas por bares e restaurantes que ocupam vários metros quadrados de área pública fingindo que querem imitar os cafés de Paris. Ora, Paris tem 1070 anos e fica no berço da civilização que ditou que tudo é “do povo, para o povo, pelo povo”. Logo, os cafés de lá ficam em áreas planejadas e não atrapalham a vida das pessoas”.

Tivemos que terminar a conversa em pé na esquina porque a padaria teve que fechar, é lógico. Passou uma viatura do “Niterói Presente” e ambos elogiamos as “necessárias ações municipais pontuais, específicas e muito eficazes em todo o mundo em defesa da segurança pública.”

Candinha roda pelo mundo mas sempre volta para casa em Camboinhas “um bairro que deveria servir de modelo para Niterói. Mas não e à toa. A Associação de Moradores de lá joga pesado com todo mundo (http://soprecam.com.br/ ), com os próprios moradores, com o poder público, com os visitantes. Se amolecer vira baderna, vira Praia de Itaipu, Prainha de Piratininga e outros horrores.”

Outro bairro que no passado foi um exemplo foi São Francisco. “A população unida mandava lá. Lembro bem, anos 80, o seu Tarquínio (Cláudio Tarquínio) com sua paixão e resistência foi o grande responsável pelo bairro não ser engolido pela especulação imobiliária” lembrei.

Candinha rebateu: “Infelizmente a coisa relaxou por lá mas ainda conta com a resistência do Centro Comunitário (https://bit.ly/2TxIIxZ) e o S.O.S. São Francisco no Facebook ( https://bit.ly/2ET3YpS ). Icaraí? Existe associação de moradores? Se existe, onde está, o que faz? E os outros bairros como Santa Rosa, Fonseca, Cubango, Centro? Sabemos que as tais secretarias regionais são meros cabides de emprego, mas poderiam estar funcionando muito mais e melhor se a pressão da população fosse mais intensa”.

Ainda há muito o que falar sobre o poder dos vizinhos, das vilas, das cidades. Alguém duvida?

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@ Utilidade pública. Quer saber quanto e como gastam os nossos deputados federais? Clique aqui: https://bit.ly/2IoXgM6 . Quer saber o mesmo de nossos deputados estuais? Clique aqui: https://bit.ly/2IFLZET . Gastos dos nossos senadores, clique aqui: https://bit.ly/313LcUD . STF, clique aqui: https://bit.ly/2IEAnSp  Gastos da Prefeitura de Niterói, clique aqui: https://bit.ly/2BfFulz Gastos da Câmara de Vereadores de Niterói: não encontramos.

 

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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One thought on “Engarrafamento de pedestres

  1. A desordem em Niterói não apenas é novidade, como aumenta a cada dia! Calçadas ocupadas por comerciantes formais e informais, mal cuidadas e ocasionando quedas são frequentes! O trânsito cada vez mais engarrafado com ruas que deveriam ser impedidas de terem tantos pontos de táxis ou de ocupação nos dois lados, filas em portas de escolas tumultuando toda a rua, a exemplo da Miguel de Frias em horários diversos!… Sem esquecer da ocupação criminosa do Campo de São Bento, por eventos “grandiosos” gastronômicos diversos, encantados com o “VERDE” do local que em breve está a ser extinto pela falta de manutenção pública e pela devastação no ambiente! Quem tiver dúvidas que vá até o Campo para presenciar o descaso dos ocupantes, que estacionam com caminhões, geradores de energia, mobiliário de restaurantes e bares, fogões e frigoríficos!! Como se o destino do Campo de São Bento fosse a privatização de seus espaços, por feiras diversas, restaurantes, parques e brinquedos eletrônicos que desvirtuam totalmente a função de um espaço declarado Patrimônio Cultural Público e gratuito de Niterói!

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