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Com poucas árvores, Icaraí esquenta e a população sofre

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:07 do dia 1 de fevereiro de 2020
Sobre: Ambiente pesado
  • árvores em icaraí
01fev

árvores em icaraíBairro mais populoso de Niterói, Icaraí está cada vez mais devastado. Muitas ruas e avenidas que no passado eram cobertas pela sombra das árvores, hoje estão praticamente peladas.

Em novembro passado, o corte de dezenas de árvores nas ruas do bairro só foi suspenso com a gritaria dos moradores nas redes sociais. Acusada pela prefeitura de ter cometido o crime a Enel, na época, negou e disse que as podas realizadas seguiram as regras da legislação municipal. Em nota, a concessionária reiterou a que a responsabilidade pela poda de árvores na cidade é da prefeitura.

Ao longo dos anos o plantio de árvores não foi suficiente e a visível “desertificação” do bairro eleva constantemente a temperatura. Moradores antigos garantem que Icaraí está muito mais quente do que há 40 anos.

No entanto, os tecnocratas da prefeitura veem como “normal” a situação demonstrando sensibilidade zero ou até um certo desprezo num momento em que toda a humanidade assiste provas de que o plantio de árvores ameniza a temperatura, filtra a poluição do ar, ajuda a combater o aquecimento global.

Nacionalmente, Copacabana é um bairro modelo no quesito “o quer não se deve fazer”. A partir dos anos 1950, os governantes deixaram que os espigões colados um no outros asfixiassem o bairro, jogando a qualidade de vida no chão. O escândalo foi tamanho que o “inchaço” de Copacabana não se repetiu no Rio.

Mas, em Niterói, a partir dos anos 1970, desgraças a inclemente especulação imobiliária associada à vista grossa do poder público, Icaraí se “copacabanizou”. Casas, chácaras, grandes áreas de verde deram lugar a prédios gigantescos construídos um colado no outro tornando-se uma monumental muralha por onde o vento do mar, que não consegue passar.

Há pelo menos duas muralhas gigantes: a própria Praia de Icaraí e a rua Moreira César são exemplos do que existe de pior em matéria de ocupação urbana. Tanto que se tornou lendária a manchete de uma reportagem do saudoso J.A. Xavier em um semanário local, nos anos 70, que dizia “Só a terceira guerra mundial pode salvar Icaraí”.

Apesar de especial, querido, cultuado, Icaraí sofre. Como sofre. As calçadas estreitas em muitas ruas são ocupadas por puxadinhos de estabelecimentos que privatizam o bem público. Supermercados ocupam a calçada para guardar carrinhos, bares e restaurantes colocam mesas e cadeiras. Claro, vendedores ambulantes vivem no bairro, onde a manutenção de calçadas (pela lei é responsabilidade dos donos dos imóveis) é péssima.

O trânsito no bairro – a palavra da moda é mobilidade – chega a ser perverso e os moradores que resolvem aderir a bicicleta, meio de transporte mundialmente consagrado, tem que correr risco de vida. Criado pelo secretário de planejamento, modernização da gestão e controle e pré-candidato a prefeito, Axel Grael, o programa “Niterói de Bicicleta” chamou a população para aderir prometendo a construção de uma grande malha de ciclovias e ciclofaixas. A população aceitou, milhares de bicicletas foram para as ruas, mas a prefeitura não fez a sua parte.

De acordo com O Fluminense de março do ano passado, o coletivo Pedal Sonoro entregou uma carta Compromisso pela Mobilidade Ativa ao Prefeito Rodrigo Neves, em sua campanha de reeleição, com 10 propostas. Luís Araújo afirma que os compromissos assumidos pela gestão não foram implementados.

Segundo o Censo de 2010, Icaraí tem uma população de 75 715 habitantes, o bairro mais populoso de Niterói. É o bairro da cidade com o maior número de idosos, 15.192, ou, 19,3% da população.

Por isso, a partir de julho com a abertura da temporada de caça aos eleitores, as ruas de Icaraí vão mostrar mais uma vez um exército de pessoas com bandeiras e distribuindo panfletos e promessas de propaganda de candidatos a prefeitura e a Câmara dos Vereadores.

Em no dia 4 de outubro, os habitantes do bairro vão digitar na urna eleitoral o que estão achando.

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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6 thoughts on “Com poucas árvores, Icaraí esquenta e a população sofre

  1. Essa é uma situação RIDÍCULA! Deveriam sim plantar árvores e não cortar ou poda-lãs nesse verão de matar aí . Um absurdo da Enel ou mesmo da Prefeitura que deveria ser o órgão fiscalizador e provedor do bem estar da população . Plantar árvores é o que deveriam estar fazendo sim e muitas em todos os lugares . Há anos atrás a Secretaria de Meio Ambiente já havia alertado sobre cupins que estavam destruindo as árvores da Cidade . Me lembro que fui com o Colégio Grafitinho, organizei um plantio no Parque da Cidade com as crianças e plantamos 500 mudas de árvores com o Apoio da Secretaria do Meio Ambiente e na época, o
    GUIDA , secretário acompanhou o meu projeto . Estou falando de 20 anos atrás exatamente. É muito triste daqui , sem poder fazer muito aí, ouvir essas tristes notícias com as árvores da CIDADE. 😢☹️ Lilia Felippe

  2. A Enel faz podas radicais em pleno verão, deixando todo mundo debaixo do sol quente. Aliado a isso , proprietários de prédios e responsáveis por Clubes, matam árvores, foi o caso da Lemos cunha, podaram radicalmente achando que haviam morto a árvore, ela voltou a brotar! Eles rasparam o caule bem perto da raiz e desta vez conseguiram acabar com a vida da pobre árvore, que não incomodava ninguém.
    Na Gavião Peixoto foram várias que morreram, e para não ter outra no lugar, passam o cimento.
    Não é à toda, que Niterói está cada dia mais quente!

  3. E mais uma árvore foi suprimida. Na rua Lemos Cunha, em frente ao número 355, foi retirada uma árvore que estava em canteiro, inclusive. Fiz denuncia à Patrulha Ambiental. Fui encaminhada à Emusa. Processo longo. Mas pode ser constatado no local. Vou continuar o processo, que constará de fotos. Foi supressão sem autorização.

  4. Gostaria de criticar a plantação de árvores de grande porte, que depois será contratado um serviço de poda, em virtude de se embaralhar nas redes elétricas, formando um círculo vicioso. Se elas fossem de pequeno porte, as podas seriam mais espaçadas. Outra coisa, existe uma árvore na natureza, que tem por característica, refrescar o ambiente. DEVEMOS PLANTAR ÁRVORES QUE SE HARMONIZEM COM O AMBIENTE

  5. E podemos incluir no hall dos problemas, a péssima iluminação pública da Praia de Icaraí. Existem trechos na escuridão total, como no início da Praia. Pagamos o IPTU caro, e o descaso da Prefeitura é vergonhoso. Manutenção não existe. A sensação de insegurança é grande.

  6. Sou obrigado a repetir o que já disse antes: as maravilhosas, meritocráticas, milagrosas, eficientíssimas e honestíssimas empresas privadas (atenção à ironia) com sua comovente preocupação em zelar pelo bem comum (mais ironia), são diretamente responsáveis pela deterioração da qualidade de vida no planeta, com seu insaciável apetite por retorno financeiro aos investidores, que diga-se, só frequentam ambientes climatizados. Acabamos de entregar a CEDAE a esses abutres. Estamos com uma coceira interminável por entregar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, as universidades públicas, e tudo mais que brota nesta terra para o capital privado. Nós, contribuintes otários, pagamos a construção de tudo, para depois eles entrarem com sua “eficiência” só para administrar os lucros, sem fazer NENHUM INVESTIMENTO em melhoria de infraestrutura. A ENEL e todas as demais empresas privadas de energia e de telecomunicações se recusam a bancar o aterramento dos cabos da rede elétrica e de telecomunicações, empurrando esta responsabilidade para o contribuinte. É sempre mais fácil e barato cortar as árvores. Essa tendência não vai ser revertida, enquanto nós, cidadãos e verdadeiros donos deste local, não tomarmos para nós o controle de tudo. Enquanto continuarmos delegando para as empresas privadas as decisões que afetam o planeta e as cidades, é só ladeira abaixo. Para quem não entende a diferença, vai uma aula rápida: uma empresa PÚBLICA de qualquer serviço não prioriza o lucro, mas sim o bem estar da comunidade. Todo serviço de INTERESSE PÚBLICO, deveria estar nas mãos do PÚBLICO, nunca de entes privados. Se o serviço público está ineficiente, então o público deve monitorá-lo e corrigir as falhas, trocando as pessoas envolvidas, se esse for o caso. Estado mínimo é só para os de baixo, pois para a elite ele é sempre máximo.

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