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40 anos sem Vinicius de Moraes, poeta ia rebatizar a Moreira César e adorava cavalgar em Charitas

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:01 do dia 11 de julho de 2020
Sobre: Grande amor
11jul

Vinícius de Moraes e sua última esposa, a niteroiense Gilda Mattoso

Vinícius de Moraes tinha 66 anos quando morreu em casa, na Gávea. Na madrugada de 9 de julho de 1980, ele começou a se sentir mal na banheira da casa onde morava, na Gávea, vindo a morrer pouco depois.

O poeta passou o dia anterior com o parceiro e amigo Toquinho, com quem planejava os últimos detalhes do volume 2 do álbum “Arca de Noé”. Foi sepultado no Cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro. Um dia muito triste para o patrimônio cultural e, por que não, afetivo do país.

Viver urgente e intensamente foi a sua proposta, seguida à risca, e como e viver e amar eram sinônimos, Vinícius nunca economizou verso, prosa e dedicação a quem amou.

A niteroiense Gilda Mattoso, viúva dele, foi o último grande amor do poeta*, mas as suas relações com a cidade são muito mais ricas do que se imagina. Tanto que a rua Moreira Cesar quase mudou para Vinícius de Moraes.

Um de seus grandes fãs é o cineasta niteroiense Mateus Cardoso, que dirigiu o curta-metragem “Balada do Cavalão — A poesia que desconhecemos”, que aborda a relação do poeta com a nossa cidade.

Como Gabriel Menezes publicou no Globo em abril de 2014 um poema de Vinícius, escrito em 1946, mostra que a cidade foi marcante em sua vida. O título do filme é uma referência à obra homônima que ele fez nos anos 40, inspirado na paisagem do Morro do Cavalão. Um trecho: “A tarde morre bem tarde no Morro do Cavalão…/ Tem um poder de sossego /Dentro do meu coração /Quanto sangue derramado”.

O documentário tem 12 minutos e conta, por meio de relatos, histórias do escritor, diplomata, dramaturgo, compositor e muito mais, em Niterói.

O diretor disse que Vinicius frequentava a hípica em Charitas e costumava cavalgar pela região. Ele também teria passado uma temporada na casa do primo Carlos Leão, em São Francisco, depois de se separar da primeira mulher. Na época, o poeta estava deprimido porque a ex-mulher levou a filha deles para os Estados Unidos — afirma o cineasta.

“Uma das curiosidades que descobrimos é que a peça “Orfeu da Conceição” começou a ser criada no período em que o poeta esteve em Niterói”, revelou Cardoso.

A ideia do curta surgiu de uma proposta de João Luiz de Souza, o João do Corujão, aguerrido criador do sarau literário, que participa da produção.

“Sempre que leio o poema fico emocionado. Você nunca imagina que um poeta que você admira e cultua esteve tão perto do lugar que você mora. Sempre me causou um certo espanto o fato de muitas pessoas não saberem que Vinicius fez a “Balada do Cavalão” em Niterói — diz João.

Atendendo a um pedido da Comissão da Verdade, em 2014, a prefeitura de Niterói enviou uma mensagem à Câmara dos Vereadores para tentar mudar o nome da rua Coronel Moreira César para Vinícius de Moraes.

Fernando Dias, presidente da Comissão da Verdade de Niterói, lembrou, na época, que Moreira Cesar foi um coronel sanguinário, que costumava degolar e decapitar prisioneiros. Vinícius de Moraes seria muito melhor por seus vínculos com a cidade e por sua imagem leve. Moreira César nunca pisou aqui.

No entanto, o então o presidente da Associação Conselho Empresarial e Cidadania (Acec), Robson Gouvea, foi contra. Para ele, a rua Coronel Moreira César é uma marca da cidade e uma mudança de seu nome prejudicaria o comércio local.

“Todo mundo diz com naturalidade que vai à Moreira César. Mesmo se houver uma mudança, a rua continuará sendo chamada assim. E, para os lojistas, seria preciso fazer alterações nas documentações referentes a imóveis e fornecedores, por exemplo. Tudo isso tem um custo, e não é barato”, argumentou Robson.

Apesar do movimento não se falou mais na troca de Moreira Cesar para Vinícius de Moraes.

*Letra de “Gilda”, canção que Vinicius compôs para a última mulher com o amigo e parceiro Toquinho.

Gilda

Nos abismos do infinito/Uma estrela apareceu,/E da terra ouviu-se um grito: Gilda, Gilda./ Era eu maravilhado/ Ante a sua aparição,/Que aos poucos fui levado/ Nos véus de um bailado/Pela imensidão/ Aos caprichos de seu rastro/ Como um pobre astro

Morto de paixão. Gilda, Gilda, Gilda e eu./ E depois nós dois unidos/ Como Eurídice e Orfeu,/ Fomos sendo conduzidos,/ Gilda e eu,/ Pelas mágicas esferas/ Que se perdem pelo céu/ Em demanda de outras eras,/ Velhas primaveras/ Que o tempo esqueceu/ Pelo espaço que nos leva/ Pela imensa treva/ Para as mãos de Deus.

 

P.S. – Sobre o auxílio emergencial para o setor cultural que o governo federal vai liberar (R$ 3 bilhões), a assessoria de comunicação da prefeitura (que irá distribuir o dinheiro) respondeu ao nosso e-mail:

“A Secretaria Municipal das Culturas de Niterói informa que a aplicação da Lei Aldyr Blanc no município está sendo discutida pela Secretaria junto ao Conselho Municipal de Políticas Culturais. A verba prevista, de cerca de R$ 3 milhões, virá do Governo Federal.

O objetivo da secretaria é utilizar parte dos recursos para promover editais de apoio aos artistas da cidade. A SMC planeja destinar também parte da verba para coletivos, grupos e empresas culturais que estejam passando por dificuldades por conta da pandemia do coronavírus, além de trabalhadores do setor.

A SMC afirma que a implementação da Lei se dará mediante diálogo com a sociedade civil, por meio do Conselho Municipal de Políticas Culturais.”

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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