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O abandono do Centro de Niterói

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A revitalização do Centro de Niterói é mais um caô, calote eleitoreiro de altos teores da prefeitura ex-petista. No entanto, escrevendo errado por linhas tortas, foi bom os ex-petistas desistirem de fazer a tal revitalização que, pelo que li, seria uma ação articulada da prefeitura com a especulação imobiliária. Na visão dos urbanistas (?) do município, revitalização é sinônimo de prédios gigantescos, paliteiro de espigões, especulação e ponto. Final.

Enquanto o Rio ganha um Centro da cidade restaurado, com direito a VLT na Avenida Rio Branco, Niterói se envergonha do quase esgoto a céu aberto em que se transformou sua principal avenida, Amaral Peixoto. Não sei há quanto tempo o ex-petista prefeito não caminha pela avenida que faz parte da história da cidade, onde a sujeirada se junta a camelotagem, vadiagem generalizada e até calçadas cheias de rombos.

Os livros (o PT sempre odiou livros) contam que a Amaral Peixoto abrigou a Alerj, abriga o Fórum, teve o melhor comércio, abrigou escritórios de grandes médicos, advogados, oferecia um bom leque de restaurantes e as pessoas caminhavam por lá cheias de orgulho. Afinal, foi a via principal de uma cidade. Hoje? A molambada urbanística tomou conta, as lojas vão à falência porque, entre outras costumeiras tragédias que comete, a prefeitura ex-petista transformou o anêmico estacionamento em uma ciclofaixa feita nas coxas.

Ali perto, Rua da Conceição também chutada para o escanteio da história. Ela foi passarela dos niteroienses que iam tomar chá na Leiteria Brasil (fechada), almoçar no Monteiro (fechado) esperando uma sessão começar no cinema Central (fechado), Odeon (fechado) ou Eden (fechado), ou, quem sabe, dar um pulo na célebre pastelaria Imbuí (fechada), ou beber uma Hidrovita (fechada).

A Rua da Conceição se assemelha à Amaral Peixoto pela história e pelo esculacho. Imunda, resiste. Ou tenta resistir. O comércio fecha as portas, mas em compensação alguns heróis insistem em abrir os seus negócios, a todo instante incomodados pelos viciados em crack que residem sob as marquises. Caminhar pelo Centro de Niterói à noite é cometer haraquiri, é querer ser predado pela chamada população de rua.

O Centro de Niterói guarda um casario de rara beleza. É o caso da Casa Norival de Freitas, ou Solar Notre Rêve, construída em 1921. Fica na Maestro Felício Toledo 474 e hoje amontoa lixo e decadência. Andando em direção à rodoviária, a Felício Toledo vira Visconde de Itaboraí e, de novo, podemos contemplar um casario lírico que merecia uma ação da prefeitura como aquela dos Corredores Culturais no Centro do Rio, anos 1980. Lembram? Mas, os moradores (ou sobreviventes) da rua dizem que não há o menor interesse do governo em fazer alguma coisa por lá porque “damos pouco voto”.

O Jardim São João, que na primeira metade do século XX reunia a fina flor da família niteroiense aos domingos, virou um pega pra capar. Se vemos alguém nu andando por lá não terá sido obra de arte como aquela baranguice depilatória que foi feita no pátio do MAC. É assalto mesmo. Quem anda no Jardim São João a partir das seis da tarde, é kamikaze. Nos anos 1990 até uma estrela de Natal reluzente que a prefeitura colocou perto da igreja foi roubada.

Ruas São João, São Pedro, Fróes da Cruz, toda a Ponta D’Areia, enfim, se a prefeitura decidisse limpar, calçar e fazer um projeto de pintura e pequenos restauros no casario dessa área, já seria um grande avanço. Sim, sonhar é preciso, principalmente em se tratando de uma prefeitura ex-petista que abandonou até a maquiagem da Rua Moreira César no coração de Icaraí.

Há quem diga que o abandono do Centro de Niterói é proposital. “Querem entregar para a especulação imobiliária alegando que assim não dá”. Não acredito. Seria muita cara de pau.

Ou não?

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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