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Uma volta no tempo com o Le Petit Paris, berço da MPB em Niterói

Escrito por Gilson Monteiro às 12:45 do dia 25 de março de 2020
Sobre: Para descontrair
25mar
O bar Le Petit Paris, em Icaraí - Niterói

Foto de Angela de Vasconcellos Ramos/1967

Com esse confinamento compulsório em casa, sem tempo certo para acabar e com a massificação do noticiário sobre o coronavírus, a gente acaba pirando de vez se não ocupar a mente com outras notícias. Por isso a Coluna resolveu lembrar um lugar onde a alegria reinava e foi point da boa música, gastronomia internacional, boemia e da sociedade de Niterói. De lá saíram artistas para brilhar no Brasil e no exterior nas décadas de 50 e 60.

O Le Petit Paris, que a turma da antiga recorda foi aberto por três franceses: o casal Brigitte-Raymond com Paul. Contavam com o inestimável apoio do baixinho Rubens Ferah. Este tinha o francês afiado na língua e deu todas as dicas e apoio para a casa de três quartos e um varandão ser transformada num restaurante em frente à Praça Getúlio Vargas, próximo do Cinema Icaraí.

Festa toda a noite

Para se ter uma ideia, tudo começou quando Sérgio Mendes, então com 16 anos, chegava com seu teclado debaixo do braço para tocar acompanhado pelo seu parceiro, o contrabaixista Tião Neto. Tocavam à noite, recebendo de cachê, cada um, dois cubas livres e batatas fritas. Tanto Sérgio como Tião viraram celebridades da música internacional.

A partir daí começou a festa, com outros craques chegando para dar canja, como o famoso cantor, compositor e arranjador Danilo Caymmi, o percussionista Naná Vasconcelos, eleito oito vezes, o melhor do mundo, o premiado percussionista, baterista e compositor Chico Batera, referência no baixo elétrico, era requisitado, pelo grandes cantores, o conhecido violonista Silveira, a turma do destacado MPB4, com Aquiles, Miltinho, Rui e Waghaby.

A princípio, o cardápio sofisticado incluía pratos tradicionais da culinária francesa, oferecendo como entrada Les crevetettes a St. Tropez. Os pratos mais pedidos eram o Le coq au vin, Le poulet farci, Le poisson a la Saulieu. Nas sobremesas, para alegria das mulheres, mousse au chocolat  e La mousse au  fruits, feitos pela madame Brigitte.

Com o tempo, foram incorporados os pratos da culinária brasileira.

Os drinques, viraram uma mistura das bebidas francesas e brasileiras, uns preferindo licores e outros batidas de limão.

Corriam também fofocas como a de que alguns pais, frequentadores do Le Petit, para não serem vistos bebendo ali à noite, proibiam as filhas de passarem pela calçada. As moças tinham que passar pela praça em frente.

O simpaticíssimo Rubens Ferah permaneceu fiel à casa, desde a abertura até o seu fechamento, quando por longo tempo, virou sócio de Roberto Lacerda Precht, uma figura bonita e popular, que tinha o apelido de Andarilho.

A Praia de Icaraí 139, que foi palco de muita noitada, canjas musicais, momentos de descontração e de alegria, início e fim de muitos namoros, e de todo tipo de comemoração, virou o edifício Modigliani. Hoje, a maioria de seus moradores desconhece que a casa que deu origem ao prédio de apartamentos, guarda uma história da música nacional e internacional, numa época em que a cidade tinha pouca opção de lazer e de gastronomia.

Nesse momento de tanta aflição, um brinde à saúde e à vida.

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Gilson Monteiro
Gilson Monteiro
Iniciou em A Tribuna, dirigiu a sucursal dos Diários Associados no Estado do Rio, atuou no jornal e na rádio Fluminense; e durante 22 anos assinou uma coluna no Globo Niterói. Segue seu trabalho agora na Coluna Niterói de Verdade, contando com a colaboração de um grupo de profissionais de imprensa que amam e defendem a cidade em que vivem.
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19 thoughts on “Uma volta no tempo com o Le Petit Paris, berço da MPB em Niterói

  1. Fui aos 18 anos vizinho do poeta J.G.ARAUJO JORGE e aos 22, amigo e vizinho do CHICO irmão do ROBERTO ANDARILHO. Minha primeira viagem a EUROPA foi toda programada pelo Roberto, com dicas ótimas. Tempo bom, não volta mais.

  2. Gilson, peço por gentileza dar os créditos da foto a minha mãe, Angela de Vasconcellos Ramos, que também aparece bem no meio. Ela recuperou essa foto faz semanas e compartilhou no Facebook. Provavelmente assim que chegou a você.

  3. Que narrativas históricas plena de saudades dos tempos gloriosos de Niteroi.
    A lembrança de Agostinho dos Santos e sua morte num vôo da Varig em Orly me situou no tempo . Era professor do Colégio Bennet que perdeu uma aluna do 1o grau neste vôo. Parabéns Gilson.

  4. Lugar muito bem frequentado. Eu tenho uma lembrança especial, o almoço de formatura com a presença de J G de Araújo Jorge, patrono de nossa turma ( Curso Normal do antigo Colégio José Clemente, atual Gay Lussac)

  5. O João Sampaio qdo mais jovem frequentava o pétit com sua namorada lindíssima ,pra época ,pelos dotes físicos
    e simpatia .Aquela que foi a principal artista do filme
    “Bonitinha mas Ordinária “do Nelson Rodrigues .
    Se O Roberto Lacerda ou o Rubens estivessem aqui ainda ,Gilson Monteiro teria muita matéria para dois livros . sobre o charmoso Pétit .

  6. A matéria sobre o Petit está ótima. Mas, lamentavelmente, omite a fase final da casa, quando meu amigo Kanela (secretario da OAB- Niterói) era responsável pelos seus destinos. Foi depois da época do Roberto Andarilho, fundador do primeiro Boliche de Niterói.

  7. EU AMAVA O PETIT PARIS. EU NAMORAVA AQUELE QUE SERIA MEU MARIDO. ERA UM LUGAR MUITO AGRADAVEL, ONDE DANÇAVAMOS AO SOM DA MPB, BOSSA NOVA. BOAS LEMBRANÇAS…

  8. Fui um dos primeiros a frequentar o Pétit , o Sérgio Mendes era meu colega de turma no colégio Brasil, junto com o Ferha( os dois irmãos) na varanda bebericando Les Pastis, discutíamos Sartre e Marcuse, e ouvíamos atentamente o Arinos , nossa mesa era recheada de cabeças siderais, Ruy Colaço, Cesar Moco, Sacarolha, Pitanga, o show era a torrada com molho frances e camarão , muita nossa, muito jazz e altas paqueras . Estive na noite de abertura celebrando com o Ramon e a Brigitte

    1. Parabéns p reportagem. Minha época!! César Moco me deu aulas. Zé Canela. Muitas tarde de sábado. Quanta gente famosa começou ali. Saudosos. !!!!!

  9. Belíssima lembrança incluindo duas figuras muito queridas à época : Rubens e o Roberto irmão do famoso Chico Andarilho que recebe do mano o apelido e o superou como o cara que mais andava em Niterói diariamente . Parabéns Dá um livro os três melhores
    períodos do famoso bar pra muitos ; Pétit Paris

  10. Muito bom, Gilson. Obrigado por resgatar uma fase maravilhosa da vida da nossa cidade e de muitos niteroiense. Principalmente pela doce lembranca do meu amigo Ferah e suas divertidas histórias do Petit Paris sempre acompanhadas de bons vinhos, assunto do qual era profundo conhecedor. O fim de noite no Petit Paris é inesquecivel. Obrigado

  11. Eu era muito jovem,16 – 17 anos, e gostava de paquerar ali na fente.. A galera que frequentava o Pétit era mais velha, universitários em sua maioria, que consumiam MPB enquanto eu era da turma que curtia o rock’n’roll, o que não combinava com o perfil da casa e de seus frequentadores.
    Mas teve um Dia em que meu primo, o baixista Otávio Bailly , iria se apresentar lá. Não lembro se ele ainda estava no Tamba Trio ou já no Bossa Três.
    Resumo: a única vez que entrei lá, sem ser para “filar” o banheiro, o show não rolou.
    Uma casa que marcou época..

  12. No Petit Paris, conheci o grande cantor Agostinho dos Santos. Foi na noite que ele apareceu com o Milton Nascimento a “tira-colo”. Milton estava vindo ao Rio, para participar de um festival de músicas. Chegou com a calça esfarrapada (tivemos que comprar uma nova para ele se apresentar na TV). Naquela noite, ele dormiu no Petit. No festival, ele defendeu a música Travessia ( foi um dos vencedores). Uma semana depois, Agostinho morreu em um acidente de avião. Triste.

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