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Memórias da Rua da Conceição e da folia que não volta mais

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Entre confetes e serpentinas, o desfile de foliões em carro aberto no Centro de Niterói / Arquivo Carlos Ruas

Com esse calor insuportável, não botei o bloco na rua — e nem vou me arriscar a chegar perto de uma infinidade de outros, lotados de gente suada e grudada uma na outra. Nessas horas, passo a lembrar do ameno e divertido Carnaval de Niterói, quando a Rua da Conceição, no Centro, era o verdadeiro point da folia.

A movimentação carnavalesca começava no final da tarde e não tinha hora para acabar. As famílias chegavam trazendo suas cadeiras e pequenos farnéis com bebidas — embora isso nem fosse necessário, já que as tradicionais casas de culinária estavam sempre abertas para atender a clientela animada.

A Imbatível Leiteria Brasil servia lanches e refeições para todos os gostos e idades; a Sportiva oferecia seus variados salgadinhos feitos na hora; a Italiana conquistava com suas pizzas servidas em pedaços, coroadas com um molho especial de suco por cima; e o Bar Municipal era famoso por seus tira-gostos diferenciados, que iam de testículos de boi à milanesa a carnes de rã ao alho e óleo.

Na retaguarda, a Farmácia Ponciano contava com seu Acácio de prontidão, sempre disposto a dar dicas para curar ressacas e, nos casos mais avançados, aplicar injeções nos braços ou nas nádegas. Para uma simples dor de cabeça, ele encaminhava o folião ao Hidrovita para tomar um Hidrolitol, a água efervescente que também acompanhava os refrescos servidos ali em frente à estação das barcas.

Entre confetes, serpentinas e os mais afoitos cheirando lança-perfume, desfilavam crianças, mulheres, homens e inúmeros blocos com fantasias que iam das mais originais às de luxo. Dependendo da performance, recebiam reverências e aplausos de pé — uma alegria espontânea que parecia brotar da rua.

Hoje, os desfiles da Sapucaí — que poderiam ser uma opção para a classe média alta — tornaram-se quase inacessíveis, com os preços dos ingressos nos camarotes ficando mais insuportáveis a cada ano. Para muitos, não resta alternativa senão assistir pela TV. Os camarotes, tomados por empresas e políticos, viraram vitrines de lobby, com a distribuição de credenciais aumentando enormemente a concorrência e afastando ainda mais o público comum.

Gilson Monteiro

Iniciou em A Tribuna, dirigiu a sucursal dos Diários Associados no Estado do Rio, atuou no jornal e na rádio Fluminense; e durante 22 anos assinou uma coluna no Globo Niterói. Segue seu trabalho agora na Coluna Niterói de Verdade, contando com a colaboração de um grupo de profissionais de imprensa que amam e defendem a cidade em que vivem.

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