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Coluna do LAM

A face desumana de Niterói

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Durante esta semana quase fui atropelado duas vezes por bicicletas na calçada, e na contramão. Um fazia delivery e o ciclista pediu desculpas alegando que por culpa da pandemia…blá, blá, blá. O outro estava de calção, camiseta, fez carinha de nojo, nem se desculpou e seguiu fazendo lambança, impune.

Tenho ouvido muitas reclamações sobre bandalhas de bicicletas e motos nas calçadas, mas a sensação é que as pessoas cansaram de se manifestar.

Além de ser atropelada (acidente com bicicletas em geral são graves) em caso de necessidade a vítima sem plano de saúde talvez precise de uma ambulância do Samu e de uma vaga no sobrecarregado e heroico Hospital Estadual Azevedo Lima já que a rede municipal não atende trauma. Ou seja, o cidadão atropelado pesará ainda mais o sistema de saúde saturado pela Covid 19 e deve rezar para não contrair a doença lá dentro.

Cada vez mais as calçadas vão sumindo de Niterói. Na rua da Conceição, por exemplo, muita gente anda na rua, junto ao meio fio, porque além das calçadas estreitas (parecem pinguelas) há o risco das marquises, muitas delas podres. Em bairros da zona sul alguns empistolados supermercados fizeram puxadinhos, aliás, puxadões, que tomam boa parte da calçada transformada em estacionamentos de carrinhos.

Tenho a impressão que esses puxadões já viraram mais valia, acabaram anexados ao patrimônio das empresas como aquela mamata chamada “incorporação” de gratificações anexadas a salários que jogam as aposentadorias nas alturas, privilégio de funcionários públicos estatutários.

Mas, verdade seja dita, calçadas não são responsabilidade da prefeitura e sim dos cidadãos, diz a Lei. Além do mais, Icaraí, São Francisco, Ingá, Santa Rosa, sob a ótica da política moderna são bairros de classe média e média alta que demandam poucas necessidades. Além do mais a zona sul dá pouco voto.

As pessoas colocam verdadeiros manilhões nas calçadas, fantasiados de vasos de planta para defenderem o que é delas. Carrinhos de supermercado, vasos de planta gigantes, canos, bicicletas pra lá e pra cá parece que são problemas do cidadão e não da prefeitura. Cadeirantes, carrinhos de bebê que tratem de andar pela rua, “na minha calçada, não”.

Iludidos pensam que um guarda municipal pode mandar um ciclista descer da calçada. Errado. A Lei diz que guardas municipais servem para cuidar do patrimônio público e calçadas não são da prefeitura e ser humano não é patrimônio.

Mesmo assim, basta olhar, não há guardas municipais suficientes em ruas como a Tavares de Macedo (entre Miguel de Frias e Presidente Backer), ou Mem de Sá, ou Pereira da Silva.

Pela lógica o cidadão deveria procurar o seu vereador e fazer a reclamação. Existem 21 vereadores pagos por nós que trabalham de segunda a sexta das 18 as 21 horas e, em tese, entre as suas atribuições está a de receber os cidadãos, mesmo os que moram em áreas com poucos votos, “pouca capilaridade”, diz o jargão da política.

E se as coisas estão divinas e maravilhosas, o cidadão poderia marcar uma audiência com o Secretário Regional do seu bairro. São 14 Administrações Regionais (com status de secretaria) que, em tese, deveriam encaminhar os nossos problemas, digo, nossas demandas segundo o jargão da política.

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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