De tempos em tempos, como se não houvesse prioridades mais urgentes, nossos legisladores decidem trocar nomes de ruas e rodovias. A bola da vez é a RJ‑100, oficialmente batizada pela Lei Estadual nº 6.925/2014 como Rodovia Prefeito João Sampaio ao longo de seus 13,5 quilômetros entre Niterói e São Gonçalo. Agora, um novo projeto quer fatiar a via: o trecho niteroiense passaria a se chamar “Rodovia Tânia Rodrigues”, em homenagem à ex‑deputada.
O problema é que, enquanto deputados se ocupam em renomear uma das mais importantes ligações entre dois municípios já conurbados pela própria rodovia, a RJ‑100 segue em estado lastimável — mais parecida com a superfície lunar, repleta de crateras, do que com uma via urbana funcional.
A ex-vereadora e ex-deputada merece todas as deferências pelo seu empenho legislativo e seu trabalho em prol das pessoas com deficiência. Mas onde já se viu prestar uma homenagem pela metade? Isto é o que acontece com o projeto de lei 7.106/26, de autoria da deputada Tia Ju (REP), aprovado pela Alerj em primeira discussão na quinta-feira (25/06). A proposta dá o nome de Tânia ao trecho niteroiense da rodovia. João Sampaio, por sua vez, perderia parte da homenagem que lhe foi prestada há 12 anos, ficando com seu nome apenas em uns seis quilômetros do lado gonçalense.
Pelo projeto de lei, que ainda vai à segunda discussão na Alerj, o nome da ex-deputada Tânia Rodrigues ficaria associado ao trecho que passa pela sede da Andef. Ironicamente, à porta da instituição fundada por ela em apoio aos deficientes físicos, existe um semáforo que quase ninguém respeita, como relatam moradores e motoristas. Mais um símbolo da falta de fiscalização e da precariedade da via.
A homenagem original não era gratuita. João Sampaio foi arquiteto, professor da UFF, vice-prefeito e prefeito de Niterói (1993/96). Concluiu obras estruturantes como o Terminal João Goulart e o entorno do MAC, além de ter sido deputado federal e referência em planejamento urbano. Sua trajetória é amplamente reconhecida por urbanistas e pela própria cidade.
Fatiar a rodovia com os nomes de dois personagens relevantes é, no mínimo, um gesto político questionável — ainda mais quando a via em questão está longe de refletir qualquer planejamento digno que faça jus aos nomes de Tânia Rodrigues e João Sampaio.
Há treze anos, o governo estadual gastou R$ 17 milhões de reais em obras de recuperação da RJ‑100. Depois disso as intervenções não passam de remendos temporários, trechos refeitos e refeitos novamente, e uma estrada que nunca atinge padrão minimamente aceitável. A rodovia permanece deteriorada, com trechos que colocam em risco motoristas, motociclistas e pedestres.
Segundo o jornalista Emmanuel de Macedo Soares, que pesquisava a história de Niterói, a RJ‑100 é mais do que uma estrada: ela é o eixo físico que consolidou a conurbação entre Niterói e São Gonçalo. Segundo ele, a antiga Estrada Velha de Maricá foi responsável por aproximar os dois municípios, permitindo a expansão urbana contínua e a fusão prática de seus limites. Hoje, quem trafega pela região mal percebe onde termina um município e começa o outro — e isso se deve justamente à RJ‑100. Enquanto milhões são desperdiçados em obras mal executadas e a rodovia continua esburacada, a Assembleia Legislativa se ocupa da troca de placas e os motoristas seguem desviando de buracos.
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