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Coluna do LAM

Um giro pela cidade

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Comecei pela rua mais engarrafada do país (confira na foto), a Álvares de Azevedo, aquela que liga a Praia de Icaraí a avenida Roberto Silveira e que vive parada das 7 da manhã as 10 da noite, dia sim o outro também, incluindo sábados, domingos e feriados. Tempo médio de travessia, com sorte, é de 20 minutos.

Quarta-feira uma ambulância do Samu, transportando um paciente em estado grave, tentava andar na Álvares de Azevedo. Foi desesperador. Ambulância com a sirene ligada motoristas fora dos carros tentando abrir espaço, todos nós tentando ajudar, mas o sinal da esquina com Gavião Peixoto seguia no seu macabro ritual: mais de 90 minutos verde para a Gavião e apenas 30 segundos para a Álvares. É assim dia e noite.

A Álvares de Azevedo é uma rua tradicional, a vizinhança dá bom dia, boa tarde, boa noite, e o que circula entre alguns deles, que pagam um dos mais caros IPTUs do Brasil, é que não colocam guardas de jeito nenhum na esquina fatídica (com a Gavião Peixoto) porque existe um problema pessoal de um amarra cachorro da prefeitura contra a rua. Mistério que estou tentando apurar.

A revolta dos moradores, cansados de reclamar, pode virar Ação Popular (me disseram no mercado que moradores advogados estão articulando) já que, por causa do caos no trânsito, os imóveis estão mais difíceis de vender ou alugar, a vida virou um inferno, a buzinaria de carros e caminhões não para. Morar na Álvares virou roubada.

De 40 em 40 dias mais ou menos, um sorridente playboy cabeludo fantasiado de agente de trânsito fica em pé na esquina fatídica sem fazer nada. O sinal abre, ele apita. O sinal fecha, ele apita. Na hora do almoço some para voltar 40 dias depois para continuar a não fazer nada.

Ponto positivo do meu giro: a área de lazer em que se transformou a Praia de Piratininga, domingo. Fui lá domingo as 10 da noite (não sei o que houve antes) e apesar da falta de arrumação dos trailers e carrinhos de cachorro quente, senti bons ventos. Gente educada, civilizada, batia papo sentada em cadeiras enquanto crianças e adolescentes curtiam skate, patins e aquela espécie de patinete elétrico com rodas laterais muito usados em shoppings top de linha. Não havia danos musicais da moda pois os quiosques e barracas sintonizaram em rádios tipo easy music (JB, Antena 1, Paradiso), tornando o ambiente agradável.

Já no dia seguinte, segunda feira à tarde, levei uma bofetada visual. Cortei o Campo de São Bento, entre Roberto Silveira e Gavião Peixoto e notei que, devagarinho, o maior parque da Zona Sul (apenar de minúsculo, apenas um quarteirão) está sendo tomado por barracas disso, barracas daquilo, pequenos prédios, feirinhas e, no passado (não sei se ainda acontece) o famigerado festival de food trucks. Domingo fica insuportável, uma massa disforme de gente, cachorros, barracas, barracas, barracas e, me disseram, para andar pelo Campo só em filas indianas.

Desci a Otávio Carneiro para acessar a calçadinha da Praia de Icaraí. Sim, chamar aquilo de calçadão só pode ser piada. Além daqueles chiqueiros urbanísticos que se auto definem como quiosques, o infeliz do pedestre que resolver enfrentar a calçadinha terá que disputar espaço com dezenas de bicicletas (muitas em alta velocidade) cachorros, multidão em paradas de ônibus, baforadas de óleo diesel.

A areia? De ponta a ponta academias de ginástica ocupam espaço e algumas cobram dos alunos usando o espaço público. Em tempo: Niterói é terra de grandes arquitetos e urbanistas. Por que a prefeitura não faz um concurso de projetos para que aquela lambança se transforme em quiosques decentes? Aliás, como o leão da Metrô, rugiram que iam demolir aquele monte de cloacas em Charitas e nada. Os quiosqueiros têm pistolões poderosos, inclusive na Câmara dos Vereadores.

Consegui sobreviver ao estreitamento da calçadinha, que se transforma em pinguela a partir do Regatas. Cheguei ao MAC e senti uma arejada. Não canso de contemplar a beleza daquele museu, que vi nascer, crescer e surgir, mudando a paisagem e ampliando ainda mais a perspectiva cultural de Niterói.

Desço do outro lado para entrar na avenida Litorânea e o cheiro de xixi anuncia a aproximação de mais quiosques caindo aos pedaços. Eles ficam enfileirados até o Forte do Gragoatá com suas cadeiras de fibra de vidro podres sempre escoltados por ratazanas do tamanho de cachorros que perambulam por ai. Os barracos não têm estética alguma e dá pena que uma das vistas mais sensacionais do país esteja coberta por aquela sequência de estrume urbano.

Chego a Cantareira e, enfim, ao Reserva Cultural que, com razão, tornou-se um orgulho da cidade. Mix de excelentes cinemas, restaurantes, áreas para crianças, eventos, festas, promoções o Reserva reúne o niteroiense puro sangue. Espetacular.

Depois do Reserva, chego a Concha Acústica. Um dia desses publico o que aconteceu a partir dali.

P.S. – O assassino da motosserra continua atacando as árvores de São Francisco.

P.S. 2 – Ouça o programa Torpedos de Itaipu, domingos e quintas as 22 horas. E ainda, Celacanto, um mergulho no rock brasileiro, sábados as 18 horas e sextas as 22 horas. Rádio Oceânica FM. Em FM 105,9 na Região Oceânica de Niterói e para todo o planeta em www.oceanicafm.radio.br.

 

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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