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Coluna do LAM

A “tempestade perfeita” do Flamengo

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A expressão “tempestade perfeita” (do inglês, perfect storm) é quando um evento é drasticamente aumentado pela ocorrência de uma rara combinação de circunstâncias.

Para os flamenguistas, 2019 foi um ano que não deveria ter terminado. Numa sucessão avassaladora de vitórias, conquistas, glórias, o Flamengo deixou o planeta boquiaberto diante de seu rolo compressor. Conquistou todos os títulos (moralmente foi o melhor do mundo), merecidamente, graças à disposição, a garra e talento dos jogadores, o fabuloso empenho da torcida, o trabalho fantástico do técnico português Jorge Jesus e, claro, a energia positiva sem a qual ninguém sobrevive.

Tempestade perfeita: time 10 + torcida 10 + técnico 10 + energia positiva 10.

No ano passado não havia pandemia, o povo estava nas ruas, superlotando os estádios e bares que espalharam telões para os torcedores. No Sport Bar (também conhecido como Cerol), na Tavares de Macedo quase esquina de Álvares de Azevedo, em Icaraí, testemunhei gente com camisas do Fluminense, do Botafogo, Palmeiras, como se a “tempestade perfeita” tivesse criado um armistício mágico, considerado impossível por muitos. O Flamengo representou a esperança do sofrido Brasil em 2019. O time foi muito maior do que a seleção brasileira (esse pigmeu que definitivamente perdeu a alma), quase antecipou o carnaval. Enfim, 2019 é tão inesquecível para os flamenguistas como 1970 é para a seleção brasileira.

A “tempestade perfeita” começou a ser desfeita por vários fatores. No final da campanha já se falava em vendas de jogadores para o exterior, venda do técnico, enfim, aquela sinergia, o que se convencionou chamar de foco foi se perdendo. Os elementos da “tempestade” foram sendo desfeitos, foram se desmanchando, contaminados pelos negócios, a quase ganância. Comparando, foi o que aconteceu com a dissolução dos Beatles em 1970. Isolados, nenhum dos quatro, John Paul, George e Ringo fizeram um milésimo do sucesso que faziam juntos.

Como o torcedor é um animal de percepção extra-sensorial, anteviu que nada seria como em 2019 quando Jorge Jesus embarcou para Portugal para viver a sua malfadada aventura de volta ao Benfica. Por que? Simples. 1 – Benfica não é Flamengo; 2 – Jorge Jesus era parte (e não toda) da tempestade perfeita.

Quinta-feira, li a matéria de Rafael Reis no UOL:

“Jesus emenda tropeços, derrapa e já sofre pressão por demissão no Benfica”

(…) O descontentamento explodiu depois de o Benfica emendar duas derrotas consecutivas no Campeonato Português: 3 a 0 contra o modesto Boavista, longe dos seus domínios, e 3 a 2 para o Braga, em casa. Mas a fagulha da impaciência com o treinador já estava acesa desde a primeira partida oficial de Jesus desde seu retorno a Lisboa.

Depois de gastar 76,4 milhões de euros (R$ 412,5 milhões) na última janela de transferências, recorde histórico do clube, e prometer montar um elenco capaz de fazer bonito nas competições europeias, os Encarnados foram derrotados pelos gregos do PAOK, em setembro, e não conseguiram vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões (…).

Ninguém pode dizer como estaria o Flamengo neste estranho, bizarro, enigmático 2020, caso Jorge Jesus tivesse ficado no clube e se os jogadores mantivessem acesa a sina de campeões. Até porque, por causa da Covid 19, podemos deletar 2020 do calendário do futebol porque jogar sem torcida, vendo vários colegas contaminados é um desastre total. Foi assim na Formula 1, nos shows, nas peças de teatro. Sem aplausos, gritos e vaias não faz sentido entrar em campo, entrar em cena, subir no palco.

Como as “tempestades perfeitas” são raríssimas é bem provável que o Flamengo tenha voltado ao “normal”. Cabe ao torcedor guardar num recanto muito especial a trajetória de 2019 do time que, independente de tempestades, é um dos maiores do mundo.

Uma pesquisa do instituto Datafolha, de setembro do mágico 2019, mostrou que o Flamengo tem mais de 40 milhões de torcedores somente em território nacional. O Clube superou o Corinthians por uma diferença numérica de seis pontos percentuais, estando com 20% do número de torcedores no total. Significa que um a cada cinco brasileiros torce para o Rubro-Negro.

No mundo, a torcida do Flamengo também é a maior. Segundo a Fifa está em primeiro lugar com mais de 40 milhões de torcedores seguida dos mexicanos do Chivas, com 30,8 milhões e América, com 26,4 milhões.

Como 2020 não valeu para a cultura, economia, esportes, cabe ao flamenguista torcer para que chegue a vacina e volte a lotar os estádios. A presença da torcida é mais do que fundamental, é vital no mundo do esporte e do entretenimento. Quanto a especulada volta de Jorge Jesus, corre o risco de ser desmistificado porque a “tempestade perfeita” passou, estamos numa nova realidade, em um novo planeta, e a grandeza histórica do Flamengo está acima de qualquer pessoa, seja técnico, treinador ou dirigente. Só não é maior do que a paixão ensandecida de sua fulminante torcida.

Artigo dedicado a meu pai, flamenguista apaixonado.

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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