Niterói perdeu, na noite de sábado, uma de suas figuras mais queridas e emblemáticas da gastronomia. Aos 84 anos, partiu Mário Martins Ribeiro Carvalho, o criador do concorrido restaurante Caneco Gelado. Ele estava acamado há alguns anos em consequência de um grave acidente, após uma queda em uma calçada. O velório acontece nesta segunda-feira, das 10h às 13h, na capela da Irmandade do Santíssimo Sacramento, no Cemitério do Maruí, no Barreto.
Com seu sorriso fácil, simpatia contagiante e jeito acolhedor, Seu Mário construiu muito mais do que um restaurante. Construiu amizades, histórias e memórias que atravessam gerações. Era daqueles portugueses que encontraram em Niterói não apenas uma cidade para viver, mas uma terra para amar e ajudar a construir.
Nascido em Fafe, no distrito de Braga, em Portugal, chegou ainda menino ao Brasil, em 1953, acompanhando a família que foi morar no Morro da Providência, no Rio de Janeiro. A vida nunca lhe deu facilidades. Aos 12 anos, já trabalhava como lavador de pratos em um restaurante de Copacabana. Para alcançar a pia, precisava subir numa caixa de Coca-Cola. Era o começo de uma história marcada por trabalho, perseverança e dignidade.
Do tanque de louças passou a ajudante e depois a garçom. Mas o espírito empreendedor falava mais alto. Em 1969, atravessou a Baía de Guanabara e abriu uma pequena lanchonete na Rua Marques de Caxias. Foi ali que surgiu uma ideia simples e genial que mudaria sua trajetória: colocar canecos de alumínio na geladeira para servir cerveja estupidamente gelada.
O sucesso foi imediato. Os clientes começaram a chegar pedindo o famoso “caneco gelado”. O negócio prosperou, cresceu, ganhou novas instalações e, mais tarde, o nome que se tornaria uma marca afetiva para os niteroienses: Caneco Gelado do Mário.
Por mais de cinco décadas, Seu Mário fez questão de permanecer perto do que mais amava. Gostava de vestir o avental branco, comandar as panelas e frigideiras, criar receitas e circular entre as mesas perguntando se estava tudo do agrado dos fregueses. Não era apenas o dono do restaurante. Era o anfitrião da casa.
Seu Mário transformou o Caneco Gelado em um verdadeiro ponto de encontro da cidade. Ali se reuniam famílias, amigos, empresários, jornalistas, artistas e políticos para conversar, discutir os rumos da cidade e celebrar a vida em torno de uma boa mesa. O restaurante tornou-se um dos espaços mais democráticos e acolhedores de Niterói.
Apaixonado pelos sabores do mar, costumava dizer que um bom peixe precisava apenas de sal para revelar toda sua qualidade. Defensor da simplicidade na cozinha, tinha especial apreço pelo cherne e pela sardinha, pratos que ajudou a popularizar entre seus clientes.
Fora do trabalho, apreciava tocar gaita, assobiar e aproveitar os domingos de folga observando a beleza da cidade que adotou como sua. Mas sua maior felicidade sempre foi receber bem. Ver o salão cheio e os clientes satisfeitos era sua verdadeira recompensa.
Seu Mário deixa uma das mais belas histórias de empreendedorismo da terra de Arariboia. Uma trajetória construída com esforço, honestidade, generosidade e muito carinho. Deixa também a certeza de que sua presença continuará viva na memória dos amigos, dos clientes e de todos que tiveram o privilégio de sentar-se à sua mesa.
Ao lado dessa caminhada esteve, durante toda uma vida, sua companheira inseparável, Suely de Oliveira Grain, a quem dedicou amor, respeito e cumplicidade. A ela, aos familiares e aos inúmeros amigos, ficam os sentimentos de toda a cidade pela partida daquele que fez do trabalho um exemplo e da hospitalidade uma arte.
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