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Niterói gasta quase R$ 10 milhões em sensores que confundem fogos com tiros

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Sistema milionário conectado ao CISP confunde fogos e descargas de veículos com violência real / Foto: Divulgação PMN

A Prefeitura de Niterói investiu quase R$ 10 milhões na compra de um sistema de sensores sonoros para identificar disparos de armas de fogo, mas a tecnologia tem se mostrado controversa e pouco confiável. Segundo reportagem da Folha de São Paulo publicada hoje (13), o prefeito Rodrigo Neves firmou um acordo de R$ 9.967.708,99 com a empresa americana SoundThinking (ex-ShotSpotter), com duração de três anos.

O prefeito defende o projeto como uma inovação na segurança pública da cidade. O sistema funciona por meio de microfones espalhados em áreas urbanas, que captam sons e os enviam a uma central nos Estados Unidos. Lá, algoritmos tentam distinguir disparos reais de outros ruídos urbanos. A promessa é ambiciosa: detectar o tipo de arma usada e acionar a polícia em tempo real. Mas na prática, os resultados têm sido questionáveis.

Em cidades como Nova York, auditorias independentes revelaram que o sistema acertava disparos reais em apenas 13% dos casos. O restante dos alertas era provocado por sons como escapamentos de veículos, batidas de objetos metálicos e fogos de artifício — ruídos comuns em qualquer cidade brasileira, especialmente em períodos festivos.

No Brasil, a tecnologia já foi testada em Canoas (RS), em 2010, e acabou desinstalada após uma série de falsos positivos. A experiência mostrou que o sistema não se adaptava bem à realidade sonora das cidades brasileiras, onde o barulho urbano é intenso e diversificado.

Apesar das evidências, a Prefeitura de Niterói decidiu expandir o projeto. Atualmente, 92 sensores estão em operação, com previsão de instalação de mais 100 unidades. O sistema está conectado ao Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp) e já foi usado para justificar ações policiais em comunidades da cidade.

Especialistas em segurança pública alertam para os riscos da estigmatização de bairros populares, onde os sensores estão concentrados. “A tecnologia pode reforçar a lógica de policiamento ostensivo em áreas vulneráveis, mesmo sem confirmação de tiroteios”, afirma Pablo Nunes, pesquisador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

A decisão de investir milhões em uma tecnologia com histórico de falhas levanta dúvidas sobre as prioridades da gestão municipal. Em uma cidade que enfrenta desafios em áreas como saúde, educação e mobilidade, o gasto com sensores que confundem fogos com tiros parece, no mínimo, precipitado.

Gilson Monteiro

Iniciou em A Tribuna, dirigiu a sucursal dos Diários Associados no Estado do Rio, atuou no jornal e na rádio Fluminense; e durante 22 anos assinou uma coluna no Globo Niterói. Segue seu trabalho agora na Coluna Niterói de Verdade, contando com a colaboração de um grupo de profissionais de imprensa que amam e defendem a cidade em que vivem.

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