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Coluna do LAM

Incêndio no Teatro Leopoldo Froes já era previsto

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Na madrugada de quarta-feira um incêndio destruiu grande parte do Teatro Leopoldo Froes, no centro de Niterói. Felizmente ninguém se feriu. A Polícia Civil já está investigando as causas. O teatro pertence a Mitra Diocesana (igreja católica), mas durante muitos anos, até o começo da década de 90, esteve cedido à prefeitura de Niterói. Em péssimo estado de conservação, os curtos circuitos eram constantes, não havia o mínimo de segurança. Palco, camarins, plateia, tudo em estado precaríssimo, sendo o mais grave a parte elétrica cheia de gambiarras e fios desencapados e a constante falta d’água. Por sorte, o Leopoldo Froes não foi palco de uma tragédia.

Em 1990, o então prefeito Jorge Roberto Silveira determinou a interdição do teatro. Na época eu presidia a Fundação de Arte de Niterói, Funiarte (cujo nome mudamos para FAN) e relatei ao prefeito o estado crítico e extremamente perigoso do imóvel. Jorge acatou os argumentos e decretou a interdição visando fazer uma ampla reforma do prédio, mas a Mitra Diocesana retomou o teatro.

Ao longo dos anos 1960 e 70, o Leopoldo Froes formou inúmeros atores, autores, diretores de teatros, músicos, técnicos. Muitas companhias de teatro infantil e adulto nasceram naquele prédio que também simbolizou a cultura de resistência. Por exemplo, lá no começo dos anos 1970, o diretor Antonio Carlos de Caz encenou a subversiva “Arena conta Zumbi” em clima de tensão porque policiais do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) marcaram presença ostensiva nos ensaios e nas apresentações. Mesmo assim, De Caz encenou o texto original e, por isso, temia-se que ele acabasse preso.

Também no Leopoldo Froes surgiram movimentos que tentavam reerguer a Cultura na cidade, que foi dizimada em 1975 com a despótica fusão do Estado do Rio à Guanabara, num dos episódios mais boçais da história política recente do país. Grupos como “Niterói vai Sumir”, “Niterói vai Assumir”, “Araribroadway” e outros, tentavam dar oxigênio à cena cultural e deles nasceram nomes de projeção nacional.

Além de uma agenda de shows de artistas consagrados nacionalmente, o Leopoldo Froes foi um marco na vida de muita gente aqui da cidade. Afinal, sua vocação experimental, braços abertos para os iniciantes, para o alternativo, para o absurdo, foi fundamental para a formação de novos profissionais.

Niterói espera há décadas que um novo Leopoldo Froes despojado, livre, simples, pequeno, mas seguro, seja erguido na Zona Norte ou na Região Oceânica da cidade – onde não há equipamentos culturais – para formar e mostrar ao público os grandes talentos que Niterói possui e que só precisam de um lugar para apresentar o que sabem.

 

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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