Nos últimos anos, à medida que ruas e estradas de Maricá vêm sendo pavimentadas e urbanizadas, cresce em ritmo acelerado o número de indicações de vereadores solicitando a instalação de quebra-molas, lombadas e redutores de velocidade. Nos últimos seis anos, esses pedidos resultaram na instalação de mais de mil saliências nas vias da cidade. E os carros não escapam do pula-pula também nas rodovias que cruzam o município, como a RJ-106 (Rodovia Amaral Peixoto), a RJ-114 (Maricá-Itaboraí) e a RJ-118 (Maricá-Saquarema).
Segundo especialistas em engenharia de tráfego e segurança viária, as lombadas têm vantagens comprovadas, mas também efeitos colaterais conhecidos, razão pela qual as normas do Contran recomendam seu uso apenas em situações específicas e respaldadas por estudos técnicos. Especialistas lembram que, embora a intenção inicial da lombada seja proteger o pedestre, esses dispositivos podem gerar novos problemas, como prejuízos à fluidez do trânsito, além de estimular manobras arriscadas por parte dos motoristas e aumentar o desgaste dos veículos.
No entanto, nada disso parece preocupar os vereadores de Maricá, cidade que se tornou recordista em quebra-molas na Região Metropolitana. Nos últimos seis anos, os parlamentares municipais fizeram 657 indicações, entre fevereiro de 2020 e julho deste ano, que resultaram, em muitos casos, na colocação de até três quebra-molas em cada logradouro indicado. E o número pode ser ainda maior, já que a conta não inclui as lombadas implantadas por iniciativa da própria Somar, empresa responsável pelas obras públicas do município.
Ano a ano, os pedidos para a colocação de quebra-molas nas ruas maricaenses crescem acompanhando o volume de obras de pavimentação. Nos últimos dois anos, a prefeitura garante ter pavimentado cerca de 100 quilômetros de pistas. Os legisladores, por sua vez, indicaram a instalação de aproximadamente mil lombadas, resultando em obstáculos salientes a cada 100 metros de rua asfaltada.
O levantamento realizado a partir das indicações parlamentares mostra que foram identificadas, em 2020, 32 solicitações; em 2021, 57; em 2022, 72; em 2023, 85; e, em 2024, 169. Ou seja, em apenas quatro anos, o volume anual de pedidos mais que quintuplicou. A tendência prossegue na atual legislatura. Em 2025, foram identificadas cerca de 160 indicações e, no primeiro semestre de 2026, 82 novas solicitações, totalizando 657 pedidos nos últimos seis anos.
O levantamento sugere uma preferência cada vez maior do Legislativo municipal por intervenções físicas de contenção de velocidade. Em vez de debater, com a mesma intensidade, medidas permanentes de educação para o trânsito, campanhas de conscientização, fiscalização eletrônica, sinalização inteligente, requalificação viária e projetos de mobilidade urbana, boa parte dos vereadores tem concentrado esforços na apresentação de pedidos para novas lombadas e quebra-molas.
Não se trata de negar a importância dos redutores de velocidade em pontos críticos ou com histórico de acidentes. Em muitos casos, eles são necessários e eficazes. A questão é a escala. Quando dezenas ou centenas de solicitações passam a ser produzidas ano após ano, espalhadas por praticamente todos os bairros da cidade, surge uma discussão inevitável: estaria Maricá construindo uma política de segurança viária ou apenas ampliando uma coleção de obstáculos sobre o asfalto recém-chegado?
Enquanto a cidade cresce e suas vias recebem pavimentação em ritmo acelerado, os redutores parecem crescer ainda mais rápido. E assim, em vez de ruas pensadas para circulação segura e planejamento de trânsito de longo prazo, o município corre o risco de transformar parte de sua malha viária em um gigantesco e sequenciado “pula-pula” para carros, motos, ônibus e caminhões.
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