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Caio Martins: o fim de um estádio histórico e uma dívida com Mestre Ziza

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O Estádio Mestre Ziza (ao lado do Caio Martins) vai dar lugar a um reservatório subterrâneo de 80 milhões de litros de água

O velho estádio do Caio Martins, em Icaraí, está com os dias contados. Palco de treinos da Copa do Mundo de 1950, de jogos do Campeonato Brasileiro e de momentos marcantes do futebol fluminense, a arena será demolida para dar lugar a uma obra considerada estratégica para a cidade: um reservatório subterrâneo destinado a reduzir as enchentes que há décadas castigam a Zona Sul de Niterói.

A mudança se tornou possível após a cessão definitiva ao município da área de 25 mil metros quadrados onde fica o campo de futebol. O ato foi formalizado nesta semana pelo governador em exercício, Ricardo Couto, e o prefeito Rodrigo Neves. Segundo a Prefeitura, o espaço abrigará o reservatório e, posteriormente, será transformado em um parque público voltado ao esporte, ao lazer e à convivência das famílias.

A decisão encerra um longo capítulo da história do Caio Martins. Construído em 1941, o complexo esportivo foi durante décadas uma das mais importantes praças esportivas do estado. O estádio chegou a receber jogos da Copa de 1950, partidas do Campeonato Brasileiro e teve parte de sua história ligada ao Botafogo, que utilizou o local durante anos. Nas últimas décadas, porém, a estrutura entrou em acelerado processo de degradação. Abandonado há cerca de dez anos, o estádio encontra-se em condições de ruína.

De 1930 até hoje, os jogadores de Niterói que brilharam no futebol mundial

O que será preservado é o ginásio poliesportivo, que continuará sob administração do Governo do Estado. O complexo mantém intensa atividade esportiva, oferecendo gratuitamente 27 modalidades, entre elas natação, hidroginástica, zumba, tai chi chuan, alongamento, capoeira, yoga e basquete. Cerca de duas mil pessoas frequentam regularmente as atividades. Além do ginásio coberto para cinco mil espectadores, o espaço conta com parque aquático, quadras poliesportivas externas, alojamentos e outras estruturas.

Mas a demolição do estádio traz à tona uma antiga dívida de Niterói com um de seus maiores filhos esportivos.

Desde 2002, o local tem o nome oficial de Estádio Mestre Ziza, homenagem a Thomaz Soares da Silva, o lendário Zizinho. A mudança foi aprovada por leis propostas pelo então vereador Wolney Trindade, posteriormente ratificada por ele quando assumiu como deputado na Assembleia Legislativa fluminense.

O problema é que, passados mais de vinte anos, o homenageado jamais recebeu sequer uma placa identificando oficialmente o estádio com seu nome.

Considerado um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, Zizinho foi criado em Niterói e deu seus primeiros chutes no Carioca Futebol Clube, fundado por seu pai. Aos 18 anos chegou ao Flamengo, onde rapidamente se transformou em ídolo. Tornou-se titular da Seleção Brasileira aos 21 anos e ganhou o apelido de Mestre Ziza pela elegância e inteligência com que comandava o jogo.

Pelé dizia que Zizinho era o maior craque que havia visto jogar. O jornalista Armando Nogueira o definiu como “o pianista e o carregador do piano”, numa referência à capacidade rara de criar e executar as jogadas ao mesmo tempo.

Mesmo com tamanho currículo, a homenagem feita em seu nome permaneceu praticamente invisível para gerações de torcedores que frequentaram o estádio.

Agora, com a promessa da Prefeitura de construir um parque público na área que substituirá o campo de futebol, surge a chance de reparar essa falha histórica. Uma praça, um memorial, uma escultura ou mesmo uma placa simples e digna poderiam finalmente apresentar aos frequentadores quem foi Mestre Ziza e explicar por que seu nome passou a identificar o estádio.

O campo desaparecerá sob o concreto de uma obra contra enchentes. Mas a memória de um dos maiores gênios do futebol brasileiro não precisa ter o mesmo destino.

Gilson Monteiro

Iniciou em A Tribuna, dirigiu a sucursal dos Diários Associados no Estado do Rio, atuou no jornal e na rádio Fluminense; e durante 22 anos assinou uma coluna no Globo Niterói. Segue seu trabalho agora na Coluna Niterói de Verdade, contando com a colaboração de um grupo de profissionais de imprensa que amam e defendem a cidade em que vivem.

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