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A lição de São Francisco, Camboinhas e Itacoatiara

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São três bairros com um objetivo em comum: não repedir a tragédia urbanística de Icaraí, Ingá e Santa Rosa, devastados pela especulação imobiliária a partir dos anos 1970. São Francisco, Camboinhas e Itacoatiara são um exemplo, uma lição de cidadania na prática, sem teorias toscas, ideações panfletárias.

Os moradores de São Francisco sabem que o bairro é visto como uma picanha pela especulação imobiliária, louca para devora-la e erguer espigões em cada metro quadrado. Já obtiveram uma vitória ao conseguirem a subida do gabarito para a construção de prédios “médios”, enquanto que o bairro vizinho, Charitas, foi engolido pelos vilões do concreto.

São Francisco resiste há tempos. Moradores mantém um pacto em defesa do bairro que deixa as autoridades loucas. Em contatos pessoais e também através da eficiente e movimentada página no Facebook, chamada “Movimento S.O.S São Francisco!” (tem 7.342 membros), exigem o máximo do poder público, não toleram “jeitinho”, protestam contra a insegurança e, acima de tudo, de olho no caos de Icaraí, Ingá e adjacências, querem preservar o bairro do ataque dos espigões.

Por isso estão muito preocupados, por exemplo, com o fato da última casa da praia ter sido vendida para virar um novo prédio. Os moradores controlam também, a mata do Morro da Viração onde, dois anos atrás, flagraram uma demarcação onde provavelmente seria erguida uma casa ou barraco. Não querem que se repitam os exemplos do Preventório, Boa Viagem e Ingá.

Camboinhas é outro grande exemplo. Em meados dos anos 70 uma grande imobiliária carioca lançou o projeto “Cidade de Itaipu”, um enorme aglomerado de prédios que iria tomar toda a área de Camboinhas. Mas graças aos movimentos ecológicos do Rio que enfrentaram a ditadura e fizeram várias manifestações na região (na época um grande descampado) o projeto foi abortado. Foi uma das maiores vitória recentes da história da sociedade civil brasileira.

Nasceu, então o bairro de Camboinhas, controlado com mão de ferro (não poderia ser diferente) por uma associação de moradores que joga pesado com os infratores, seja governo, seja desordeiros, seja quem for. “Aqui quem canta de galo é o morador”, explica um engenheiro que mora lá desde os anos 1990.

Como São Francisco, o bairro de Itacoatiara é alvo crônico da cobiça da indústria imobiliária e vive açoitado por maus visitantes que nos fins de semana de sol (e também feriados) estacionam carros nas calçadas e em frente a saídas de garagem, fazem muita baderna pelas ruas, churrasco na areia da praia onde adoram jogar futebol.

Semana passada os moradores, mais uma vez, pediram a prefeitura para limitar o acesso de veículos ao bairro, medida adotada nas cidades mais civilizadas do país. Basta medir a capacidade máxima de veículos e instalar uma “cancela eletrônica”, como as que medem o número de passageiros nos catamarãs. A prefeitura recusou o pedido e disse, de novo, jogou o problema para a Secretaria de Ordem Pública, conhecida como Zé Aleixo, “nada fiz, nada deixo”.

O prefeito ex-petista disse ao Globo que “evidentemente, não se pode proibir a entrada no bairro. Mas é necessário esse ordenamento com a presença da Guarda Municipal e da NitTrans”. Como assim não se pode proibir a entrada? Por ele não haveria limites de passageiros para os catamarãs e todos naufragariam?

São Francisco, Camboinhas e Itacoatiara provam que é possível, sim, exercer a cidadania na prática. Ao lutar por mais segurança, pelo fim da “copacabanização” imobiliária e da lambança em geral basta se unir e ir para a luta. Sem trégua.

Luiz Antonio Mello

Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.

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