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Pinheiro lembra quando a notícia fervia

Escrito por Gilson Monteiro às 14:13 do dia 20 de maio de 2019
Sobre: Jornais vespertinos
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Pinheiro Junior, jornalista dono de um imenso currículo na grande imprensa brasileira, acaba de lançar um novo livro — A febre de notícias ao entardecer – em que conta como era o fervor das redações na produção das edições vespertinas na década de 60 em sua disputa por mais leitores. Os jornais contavam “histórias de amor e ódio, mistérios sem fim, retratando heróis e bandidos, benfeitores e criminosos muitas vezes em uma mesma página”, relembra o autor.

“A febre das notícias ao entardecer” está sendo lançado pela Auracom Livros e pelo site amazon.com.br (em diversos formatos digitais).

Os anos 60 marcaram a transformação dos jornais diários de duas edições em edições únicas que perduram até hoje, enquanto avança o jornalismo online trazendo notícias em tempo real, mas sem o glamour daquela época em que repórteres e fotógrafos apuravam os fatos e os apresentavam alguns em estilo romanceado. Hoje, as reportagens saem iguais, com fotos idênticas e pouco ou nenhum cuidado com a exclusividade tida como ponto de honra dos jornalistas do tempo em que Pinheiro Junior começou brilhando na Última Hora.

Mestre do jornalismo profissional, Pinheiro comandou importantes veículos de comunicação (*), em várias fases dos jornais impressos, e agora, neste seu sexto livro brinda os leitores com seu trabalho de pesquisa, resgatando o tempo de quando os vespertinos lutavam para garantir sua sobrevivência.

Na época, lembra o autor, “as narrativas se aglomerarem como reportagens políticas, policiais e de costumes e até literárias como se tudo se entrelaçasse, se completasse e se justificasse”.

– Essa  promiscuidade era típica dos jornais de sensação, que nem sempre estabeleciam separação editorial para assuntos diferentes. Era o sintoma mais nítido da desesperada busca de leitores que tinham que ser alcançados onde quer que estivessem para garantir a sobrevivência dos vespertinos – conclui Pinheiro Junior.

No livro, o repórter-narrador recebe um hipotético manuscrito que lhe foi entregue, pouco antes de morrer, por um repórter de longa vivência com a notícia. Como se fosse um diário de bastidores das reportagens feitas por ele e colegas de outros vespertinos, vão sendo registrados e encadeados os acontecimentos – “os mais estranhos amores, irrefreáveis rancores e insondáveis segredos – sem as peias do anódino jornalismo diário”. O próprio repórter que protagoniza a narração de todas as histórias é em si um fato de criação não menos misteriosa, em sua luta para mostrar que, a partir dos bastidores, era difícil saber quem era herói. E quem merecia ser condenado como bandido.

– Porque aquela era do vilão errante – acentua o repórter-narrador – numa sociedade que parecia dar à execução de bandoleiros do asfalto mais importância do que, por exemplo, à polêmica do Prêmio Nobel escamoteado – por vilões internacionais? – ao célebre físico brasileiro Cesar Lattes.

Juntando-se ao seu personagem-repórter, Pinheiro Junior lembra que por cima da realidade secreta que encerrava todas as histórias romanceadas estava a gritaria dos editores redações afora, numa febre escaldante, porque era preciso vender jornal para atingir o público cada vez mais arredio.

– Tão arredio – continua Pinheiro – que acabou rendendo-se à fome econômica e, por fim, à censura política.

É esta a batalha retratada no movimentado documento que o repórter observador-investigador confiou ao autor, Pinheiro Junior.  “A Febre de Notícias ao Entardecer” é, porém, mais que um epitáfio para uma poética insidiosa. Soa também como um vaticínio à espreita do que resta dos jornais impressos.

  • O autor José Alves Pinheiro Junior foi eleito para a Academia Fluminense de Letras e integra o Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas do RJ. Trabalhou como repórter, redator, editor e diretor dos jornais Última Hora, O Globo, O Jornal, A Crítica de Manaus, O Dia, O Fluminense e Tribuna da Imprensa, além das revistas Manchete, Revista da Semana e Brasil Mais. Foi chefe de redação da TV Globo, gerente de jornalismo da TV Rio, editor da TV Educativa e produtor de programas para as rádios MEC e JB. É autor dos seguintes livros: A Última hora Como Ela Era, Bombom Ladrão, Mefibosete e Outros Absurdos, Aventuras dos Meninos Lucas Pinheiro e Esquadrão da Morte.

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Gilson Monteiro
Gilson Monteiro
Iniciou em A Tribuna, dirigiu a sucursal dos Diários Associados no Estado do Rio, atuou no jornal e na rádio Fluminense; e durante 22 anos assinou uma coluna no Globo Niterói. Segue seu trabalho agora na Coluna Niterói de Verdade, contando com a colaboração de um grupo de profissionais de imprensa que amam e defendem a cidade em que vivem.
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