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Pedras rolam e matam; o poder o púbico enterra e esquece

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:28 do dia 17 de novembro de 2018
Sobre: Pedras que rolam
17nov

Nos últimos anos Niterói foi definitivamente deformada e, sinceramente, acho que não se recupera mais. Por um lado, o ataque brutal da especulação imobiliária que continua devastando qualquer metro quadrado disponível, com ou sem árvores, com ou sem gente. Do outro, o inchaço das construções desumanas em áreas de altíssimo risco. No meio da trama, alguns políticos que fazem olhar de paisagem.

Por exemplo, quem passa por Charitas fica chocado com a profusão de prédios na orla, a baderna na praia aos domingos e feriados, quiosques imundos. Aliás, todos os quiosques da orla, entre o Forte Gragoatá e o Preventório deveriam ser demolidos, dando lugar a outros mais limpos, saudáveis e até bonitos.

Você passa por Charitas e mais adiante tem a visão assustadora do Morro do Preventório, que algumas pessoas já chamam de Complexo. Como cresceu, como cresce e avança aquela terra refém do tráfico e das milícias. Uma comunidade que já esqueceu que no início dos anos 90, duas pedras rolaram e só não foi uma tragédia porque o destino não quis. Mas ficou o alerta de que o risco continua e que, em resposta, o Complexo do Preventório cresceu e se expandiu.

Ano passado O Globo publicou uma enorme matéria sobre o avanço das “comunidades” em bairros como Santa Rosa, Icaraí, Ingá, Fonseca… Recentemente o país assistiu na TV uma pessoa ser baleada dentro do quarto de um hospital particular em Santa Rosa, cercado por duas favelas, onde há até prédios de três, quatro andares erguidos irresponsavelmente.

O verão não começou, mas até Maju do Jornal Nacional já alertou que vai chover bem acima da média. Aqui na cidade não vemos manutenção de bueiros, valas, canais. Não vemos, mas a prefeitura diz que existe. Aliás, a prefeitura se garante, afirma que está tudo bem com as encostas tomadas de construções irregulares e que nada vai acontecer. Torço que ela esteja certa porque concordei com Ciro Gomes quando ele disse que, na condição de passageiro, não vai torcer para o avião cair só porque não gosta do piloto, numa referência a Bolsonaro.

Sinceramente torço para que a prefeitura tenha razão quando diz que está tudo lindo, tudo maravilhoso e que chuva nenhuma vai ameaçar a cidade, que Niterói virou Sydney (Austrália), que a cidade é o novo berço da Civilização. Torço mesmo que não haja lógica, afinal ela batizou Niterói de “cidade da mobilidade urbana” apesar do trânsito caótico, Imobilidade total. Os homens do ‘Ezecutivo’ botam a culpa nos Ubers e 99 da vida, esquecendo que não há planejamento, guardas, os sinais estão sucateados, todo mundo tranca cruzamentos impunemente, flanelinhas mandam na cidade, enfim, é o escárnio travestido de “Miss Mobilidade”.

Apesar de sabermos que os carros vão continuar proliferando, favelas vão continuar avançando, prédios vão continuar destruindo, e esgotos entupidos, torço para que o avião não caia.

Que assim seja.

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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