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Niterói, futuro, passado, presente

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:30 do dia 10 de novembro de 2018
Sobre: Reminiscências
10nov

Semana passada um amigo de infância, irmão mesmo, passou uns dias aqui em Niterói. Ele é daqui, mas há muitos anos vive em outra cidade. Meu irmão se chama Márcio Paulo Maia Tavares e quando nos encontramos, o papo gira em torno das coisas de hoje, de amanhã e de ontem. E bota ontem nisso.

Domingo, num almoço na casa de sua irmã Mônica e do seu super cunhado Alberto Considera, com a presença da outra irmã Márcia e do sobrinho Eduardo, eu e Adriana, a conversa perambulou por vários assuntos. Um dos destaques foi o brilhante filme “Bohemian Rhapsody”, que assistimos sábado, filme que conta a história da banda inglesa Queen & Freddie Mercury, em cartaz nos cinemas da cidade. Que filmaço! Que filmaço!

Claro, falamos da nossa adolescência aqui em Niterói e lembramos que em uma dessas conversas, anos atrás, no extinto Velho Armazém, no quase extinto São Francisco, tentamos provar para quem não morava aqui que em 1973 podia-se, sim, jogar bola na rua Álvares de Azevedo, hoje chamada de “a mais engarrafada do país” e também na Pereira da Silva, e também…Bom, sintetizando, tentamos convencer que havia qualidade de vida aqui na cidade, com exceção das praias já poluídas que transmitiam hepatite.

O transporte era bicicleta, rodávamos a cidade toda. Não havia bandidos em profusão, só os batedores de carteira de praxe no Centro. Havia muitas casas (a do Márcio, depositário de nossas memórias, resiste, continua lá), havia balão, cafifa (pipa), havia galos de briga, criação de canários, havia um barco de madeira branco que o próprio Márcio fez, apelidado de oferenda. Havia guarda noturno, limpeza de todas as ruas, carros da polícia com policiais conhecidos, vilas, árvores, pássaros. Não imaginávamos que o apocalipse urbanístico, social e político estava tão próximo.

Niterói começou a ser esquartejada a partir do estupro da ponte Rio-Niterói, em 4 de março de 1974 e, para piorar, os militares mandaram o antigo Estado do Rio casar a força com a Guanabara, fundindo tudo. Niterói perdeu a condição de capital do Estado, começou a ser invadida por gente de todos os lugares graças ao chacoalhar da dinheirama que a especulação imobiliária estava arrecadando com seus prédios de 20 andares que, em pouco tempo, destruíram parte de Icaraí, Ingá, Santa Rosa, Cubango. Foi um linchamento.  A cidade deixou de se reconhecer.

Aquela Niterói de 1973, pacífica, generosa, engraçada e gostosa de viver deu lugar a um amontoado de concreto e pessoas que não tinham (ou tem) qualquer vínculo afetivo com a cidade. Parece um imenso “aniversário Guanabara”.  Junto desses alienígenas veio a escória política do nível mais baixo. Se antes tínhamos um governador que morava e despachava ali no Palácio do Ingá e uma Assembleia Legislativa sediada na avenida Amaral Peixoto (onde hoje é a Câmara dos Vereadores), depois do estupro da fusão os governadores foram para o Palácio Guanabara e os parlamentares para a Alerj, no Rio, onde ver deputado ir em cana é tão natural quanto cachoeira de esgoto em comunidades carentes.

O governador da fusão foi um homem sério. O almirante Faria Lima, enfiado no Palácio Guanabara pelo general presidente Ernesto Geisel, era simples, sério, honrado. Nomeou para prefeito de Niterói outra figura pública limpa, o engenheiro Ronaldo Fabrício. Os dois fizeram bons governos. Só não entendi o Fabrício ter deixado as hienas da indústria imobiliária arrasarem a cidade. Já o governador, investiu em água e esgoto, saúde, educação e defenestrou os políticos que, como parasitas, se amontoavam na porta do palácio pedido vantagens pessoais.

No auge da esbórnia imobiliária, o saudoso jornalista e mestre J.A. Xavier fez uma matéria de capa em um jornal local onde eu era editor, com a manchete: “Só a Terceira Guerra Mundial pode salvar Niterói”. Escreveu sobre a “copacabanização” da cidade, paredões der concreto em ruas como a Moreira Cesar, etc que, segundo ele, “só bombas V2 podem remover”. Da mesma forma, um conhecido hoje diz que a especulação só não arrasou tudo graças ao PT, que atirou a economia do país lixo, provocando a pior recessão da história. Ou seja, as vendas de imóveis estão quase zeradas.

Eu era setorista (repórter que fica em um setor) do Palácio Guanabara e andei muito pelo Estado do Rio acompanhando a comitiva de Faria Lima. Ele fez muito e iniciou muitas obras, mas no íntimo tinha certeza de que as obras não seriam terminadas pela escória que o sucederia.

Quando Chagas Freitas, um dos mais vis personagens da política brasileira, ganhou a eleição para governador em novembro de 1977, eu estava no Salão Nobre do Guanabara quando, em um discurso de despedida, Faria Lima foi taxativo: “Bem, senhoras e senhores. A horta está plantada, que venham os gafanhotos”.

Chagas adentrou com o seu bando, liderado por seu afilhado político Miro Teixeira, mais tarde golden boy da esquerda e um monte de figuras cujos nomes não vou mencionar para não estragar o almoço dos leitores. O chaguismo implantou a política da bica d’água em todo o Estado (água em troca de votos), fez vista grossa para a contravenção e a criminalidade começou a tomar os morros. Chagas tinha os dois jornais populares que eram os mais vendidos no Rio, O Dia e A Notícia, dirigidos e manipulados por Miro. Chagas não fez absolutamente nada por Niterói e, creio, jamais pisou na cidade. Se alguém viu, por favor informe.

Veja a cordilheira de outros governadores que surgiram com o tempo: Garotinho, Rosinha, Benedita da Silva, Cabral. Meu Deus, como o RJ vota mal. Sobrou para Niterói, cidade que foi ficando cada vez arruinada, desfigurada.

Ouvi de muita gente comentários de que a cidade não resiste a uma chuva de primavera (vários pontos inundados quarta-feira a noite), que com a falta de manutenção preventiva pode virar um mar de lama nas chuvas de verão. Apesar de estar rica (royalties do petróleo), a prefeitura parece que só apresenta projetos, maquetes, desenhos. Tem até secretaria com o nome de “mobilidade” diante de uma cidade revoltada e imobilizada pela falta de sinais decentes, guardas e respeito. Não adianta botar a culpa no Uber e no 99.

Não é saudosismo lembrar da Niterói do passado. Acho até saudável. Afinal, foi uma bela história de uma cidade média que foi feliz, sabia disso, mas acabou na guilhotina da falta de respeito e consideração.

P.S. 1 – Por que o presidente eleito resolveu transferir a embaixada do Brasil para Jerusalém, provocando a ira no mundo árabe? Os árabes compram bilhões de dólares do Brasil todo ano e Israel sequer um ovo de codorna.

P.S. 2 – O presidente eleito não quer ou não consegue calar a boca do trio ternura, seus três filhos? Que barrigada mal dada. Além de arrogantes tem uma rara capacidade de falar asneiras compulsivamente, complicando a vida do pai. Desagregadores profissionais.

P.S. 3 – Depois de delirar com atiradores de elite abatendo traficantes de fuzil e drones armados arrasando geral, parece que o governador baixou a bola e finalmente admitiu que Pinóquio não existe.

P.S 4 – Quem tem Magno Malta e Onyx Lorenzoni não precisa de oposição.

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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2 thoughts on “Niterói, futuro, passado, presente

  1. Primo, sobre Faria Lima, tive o prazer de trabalhar para seu governo (entre 1977/1979) na condição de Engenheiro residente de uma Empresa de obras Públicas para a execução das obras de implantação de galerias e coletores sanitários da CEDAE em Icarai, ocasião em que foi também construída a nova ETE (estacao de tratamento de esgoto).
    Gosto sempre de contar que, por 2 vezes, “descobriu-se” que o Governador visitaria minha obra de manhã e que ele era madrugador. Da primeira vez Duvidei mas, cumprindo orientação superior do meu “patrão”, fui para a beira da obra na Rua Lemos Cunha às 6:00h da manhã. Quando ameacei acender meu primeiro cigarro, eis que para um opala preto na esquina da rua Carlos Halfeld às 6:10h e dele desce o “Comandante”, como respeitosamente o chamavam, num impecável terno preto, acompanhado de um segurança e de seu motorista. Aproximei-me à ele já na beira da vala de escavação no centro da Lemos Cunha e apresentei-me. Mais ninguém na rua. Naquele sepulcral silêncio, olhou nos meus olhos e disse:
    – E então doutor, como estào nossas obras?
    Explicações dadas, seu motorista aproxima-se dele e lhe fala:
    – Governador, o jornal da cidade de hoje (falava do O Fluminense) diz que o povo está reclamando pq essa obra está deixando misturar água de esgoto com água potável. Ao que o Comandante imediatamente responde:
    – E daí? Obra é isso mesmo! Eu que sou o governador , bebo água com merda toda vez que vou passar um fim de semana em Teresópolis.
    E mais uma vez olhando fundo nos meus olhos disse:
    – Parabéns pelo trabalho, doutor, e vamos continuar tocando isso aí. Voltarei mais vezes.
    Às 6:30h o Governador partiu.
    Tive mais um desses encontros com ele fora outras vezes que veio de surpresa.
    Homem Simples e objetivo.
    Atendi seu pedido e em 1979 a obra foi inaugurada. Fiz minha parte.

  2. O que fizeram com Niterói foi um crime. Tudo que você falou é a mais pura verdade. Os cariocas debochavam do niteroiense dizendo que aqui era dormitório e que de bonito só tinha era a vista para a baía de Guanabara. A minha Niterói ficou no passado, onde as lembranças estão nas fotos que tenho.

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