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Caminhando pelas ruas de Niterói

Escrito por Luiz Antonio Mello às 08:32 do dia 21 de abril de 2018
Sobre: Fora da ordem
21abr

Caminhando pelas ruas de Niterói, noto que é errado afirmar “todo ano jogo meu IPTU no esgoto”. Nem no esgoto nossos impostos estão porque o que mais sentimos nas ruas, vielas, avenidas da cidade está simbolizado pelo cheiro de urina e fezes, humanas e também de cachorros, cujos donos, primitivos radicais, levam para passear sem recolher os dejetos. Tempos atrás lavavam as ruas (alguém lembra?), mas hoje quase não vemos, sequer, garis. Se os cachorros levassem seus donos na coleira, esse fenômeno não aconteceria.

Caminhando pelas ruas de Niterói reparo a multiplicação bizarra de marginais fantasiados de flanelinhas, achacando motoristas apavorados nas ruas internas de São Francisco e Icaraí. Alguns batem no peito, orgulhosos (na verdade ameaçando) dizendo que vieram de um complexo qualquer, aquela tragédia urbana que existe no Rio. Os marginais agem livremente porque, afinal, a culpa não é de quem faz, mas de quem deixa fazer. Desde Adão e Eva é assim.

Caminhando pelas ruas de Niterói reparo que não encontro mais amigos ou conhecidos da adolescência, ou mesmo dos anos 1980/ 90. A maioria fugiu da cidade. Muitos moram em São Paulo, outros no Rio, vários foram para o interior para suposto alívio daqueles que querem, mesmo, que os incomodados se mudem.

Caminhando pelas ruas de Niterói vejo que a areia da Praia de Icaraí foi privatizada e loteada por academias de ginástica (oficiais e clandestinas) que faturam alto dando aulas (pagas) para pessoas de várias idades, utilizando um espaço público, reduzido a quase nada. Muita gente reclamou (e reclama), mas o governo nada fez, faz ou fará. Por que? Não sei.

Caminhando pelas ruas de Niterói noto que a quantidade de moradores de rua atingiu níveis astronômicos. Famílias inteiras fazem suas necessidades e dormem nas calçadas a qualquer hora do dia e da noite. Abordam (muitas vezes de forma violenta) os cansados, suados, revoltados cidadãos exigindo dinheiro, como se os habitantes de Niterói tivessem que pagar multa pelo abandono deles.

Caminhando pelas ruas de Niterói observo que os quiosques no calçadão da Praia de Icaraí viraram restaurantes pé sujo, com várias mesas e cadeiras espalhadas pela calçada que, em tese, é pública. O poder público, em tese, deveria resgatar devolver áreas públicas ocupadas ilegalmente aos cidadãos. Ou não?

Caminhando pelas ruas de Niterói observo que a Praia de Itaipu se transformou mesmo em um esculacho urbanístico à beira mar do Brasil. Havia um projeto de reurbanização daquilo que um dia foi uma bucólica aldeia de pescadores. Que fim levou o tal projeto? Onde foi parar? Por que não foi executado? Até quando aquele quase balneário transformado lixo urbanístico vai agonizar no lodaçal da decadência?

Caminhando pelas ruas de Niterói, sinto que a população está indignada com a poluição. De fato, em bairros como Icaraí, Ingá, São Francisco, Santa Rosa, as ruas foram tomadas por kombis que migram de outras cidades para catarem ferro velho aqui. Um dirige e o colega, no banco do carona, importuna todo mundo usando um alto falante vendendo ovos, legumes. Por falta de fiscalização, vans, caminhões e ônibus formam uma verdadeira esquadrilha da fumaça empesteando toda a cidade. Tempos atrás, o poder público realizava blitzes em vários lugares medindo as emissões de fumaça dos veículos. Hoje? Nada.

Caminhando pelas ruas de Niterói, não reconheço mais nada. Moro nessa cidade desde os anos 1960 e hoje concordo com meu saudoso amigo Jorge Alberto Xavier (o célebre Jajá), jornalista de ponta (foi correspondente do Estadão no Vietnã) que escreveu uma sensacional matéria de duas páginas no jornal LIG, em 1976. Título: “Só a terceira guerra mundial pode salvar Icaraí da especulação imobiliária”. Na matéria, Jajá lembrava que só uma implosão em massa livraria a cidade dos prédios que proliferaram com a primeira onda da nefasta especulação imobiliária, que transformou a praia de Icaraí e ruas como a Moreira Cesar, em muralhas de espigões. Xavier foi ameaçado de morte, mas não arredou o pé daqui. Nos anos 80, por livre e espontânea vontade, foi viver em Minas. Acabou poupado de ver a Niterói de hoje, que não livrou a cara sequer de Charitas, também tomada de monstros arquitetônicos. Boatos dizem que a hora de São Francisco ir para o abate vai chegar em breve.

Caminhando pelas ruas de Niterói pensei em me mudar daqui. Cabeça quente. Avaliei melhor e decidi ficar. Caminhando pelas ruas de Niterói decidi continuar a caminhar pelas ruas de Niterói, que é a NOSSA cidade. E não a cidade deles.

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Luiz Antonio Mello
Luiz Antonio Mello
Jornalista, radialista e escritor, fundador da rádio Fluminense FM (A Maldita). Trabalhou na Rádio e no Jornal do Brasil, no Pasquim, Movimento, Estadão e O Fluminense, além das rádios Manchete e Band News. É consultor e produtor da Rádio Cult FM. Profissional eclético e autor de vários livros sobre a história do rádio e do rock and roll.
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6 thoughts on “Caminhando pelas ruas de Niterói

  1. Triste ler isso tudo, infelizmente o povo escolhe esses políticos que comandam Niterói, então não há muito o que fazer, enquanto o voto for obrigatório quem tiver mais dinheiro vai continuar se elegendo

  2. Isso porque vc nem citou o Fonseca porque pra maioria este bairro não existe. Só se preocupam com Icaraí, Santa Rosa, Charitas e São Francisco. Porque no Fonseca só existe pobre e pobre tem que morrer. Um bairro com casas históricas puxadas e abandonadas. Antes as crianças brincavam nas ruas. Agora ninguém mais sai de casa. Nas favelas traficantes disputam a venda de drogas para os playboys dela zona sul. E onde esta o prefeito?

  3. Os “notáveis” moradores da cidade, estes que se auto-proclamam “os únicos habitantes puro-sangue do local” (como se isso tivesse alguma verdade histórica ou antropológica, afinal, todos somos descendentes de invasores), são pródigos em contribuir para a destruição da cidade, senão vejamos: sinaleiras de garagens escandalosas só existem nos prédios de classe média alta, e seus moradores acham isso absolutamente natural, pois, segundo sua lógica deturpada, pedestres nas calçadas tem “mais é que sair da frente, pois tenho todo mérito e prioridade dentro do meu carrinho”; buzinaço de carros particulares, filas duplas (agora até triplas) nas portas das escolas particulares, cruzamentos travados por carros, motoristas invadindo ciclofaixas e avançando sinais e cruzamentos sobre ciclistas e pedestres, são perpetrados por fascistas de classe média que acreditam piamente que dentro de seus carrinhos, podem tudo.
    Outro ponto: se a construção de novas unidades habitacionais cresceu tanto nos últimos anos, certamente é porque houve demanda para tal. Se antes bastavam ‘x’ habitações para ‘y’ habitantes, a matemática nos ensina que se temos ‘5y’ habitantes, também precisaremos de ‘5y’ habitações. Como não temos (será que teremos um dia?) o hábito de compartilhar moradias, não há alternativa a não ser criar mais unidades habitacionais individualizadas. Para quem acha que preocupação com o tamanho da população é coisa de sociopata nazista (tremenda burrice e mau-caratismo intelectual), vai aí uma reflexão.
    Último ponto: se cabe ao poder público regulamentar, fiscalizar, e coibir todos esses aspectos mencionados no artigo acima, então o Estado não tem que ser tão mínimo assim, né? Se é o Estado quem deve cuidar de tudo, então ele precisa de recursos materiais e humanos para tal, portanto ele JAMAIS será mínimo, Quem defende Estado mínimo e depois vem pedir que o Estado cuide de tudo, além de incoerente, carece também de inteligência política (eu diria, inclusive, de inteligência geral).

  4. Eu era moradora de São Francisco, tinha um negócio há 15 anos no Ingá. Moradora do Rio, na época, passei minha infância na casa da minha avó, no Fonseca. Cheguei a ir no cinema que havia no bairro chic e brincar no bailinho de carnaval. Aprendi a andar de bicicleta, nas tardes de verão, onde minha avó sentava-se na calçada junto a outros vizinhos, e ficava me olhando…
    Hoje, 40 anos depois, já não moro no Brasil.
    Como tantos outros, vendi o meu negócio. Aluguel caro, IPTU de primeiro mundo e serviços de terceiro.
    Andar pelas ruas de Niterói, ir ao “Saco” a noite, Le Village , Paludo…. Já era. Ficou na lembrança.
    Desisti…. Que triste fim.

  5. Este processo vem acontecendo gradativemte ,infelizmente alcançou níveis absurdos .
    Mas como já escrevi nesta mesma coluna a zona norte da cidade e mais degradante ainda . Moro em Santa Rosa e ainda temos uma média qualidade de vida . Na zona norte não temos calçada com acesso de idosos ou cadeirantes, e os ilustres vereadores dos bairros nada fazem. A ruas do Fonseca viraram um mercadão não temos como transitar nem de carro nem a pés.
    São Januário e o entorno do Bairro Chique estão um lixo . Engenhoca acabou
    Lamentável.

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